HISTÓRIAS EM QUADRINHOS - ARTE E LITERATURA

 

           O homem de Cro-Magnon, o primeiro desenhista, riscava quadrinhos nas paredes de sua caverna: desenhos que mostram aventuras são encontrados nas grutas de Lascaux, na França, e Altamira, na Espanha. Depois, vieram as escritas dos assírios e dos babilônios até que, nas pirâmides do Egito, foram reproduzidas imagens das batalhas, de cerimônias religiosas e da vida dos faraós. Também os gregos, em seus palácios e casas, gostavam de fazer desenhos em alto relevo e foi, assim, que nossa civilização conheceu as Olimpíadas através de histórias em quadrinhos nos vasos e nas estátuas gregas. Por sua vez, os quadros da Via Sacra - a história de Jesus Cristo - que podem ser encontrados em todas as igrejas católicas bem como outras narrativas figuradas em estandartes chineses, tapeçarias medievais, vitrais góticos e livros ilustrados deram origem aos seriados, famosos na televisão. Precursores dos comics podem ser considerados todos os autores da chamada “literatura de estampa”. Assim, em 1798, o inglês Thomas Rowlandson criou o Dr. Sintaxe e, em 1827, o suíço Rudolph Topfler criou o Monsieur Vieux-Bois. Todos esses fatos atestam a importância das gravuras na história da humanidade, no entanto as histórias em quadrinhos (HQ), tal como as encontramos, na atualidade, nos gibis, têm sua origem no século XVIII. Em 1820, na França, vendiam-se as chamadas "canções de cego", tanto em edições populares quanto em edições com luxuosas iconografias (imagens). As "imagens de Epinal", contos infantis com vinhetas e legendas, já tendo heróis de capa e espada, datam dessa época. Tinham por propósito dar ao povo a chance de transferir-se para a vida romanceada de seus ídolos. E, nos EUA, em 1822, a imprensa transformou-se por causa do surgimento da litografia e, em 1823, em Boston, um almanaque publicado pro Charles Ellms traz, pela primeira vez, entre passatempos e anedotas, alguma historietas cômicas até que, em 1846, aparece em Nova Iorque a primeira revista exclusivamente com essas historietas intitulada Yankee Doodle. Enquanto isto, os europeus liam os Rebus (historietas de conteúdo social) e os japoneses contavam com as histórias da dinastia Meigi ilustrada em quadrinhos. Um dos pioneiros dos quadrinhos é Rudolf Töpffer, artista e escritor suiço, com o sr Vieux-Bois, em 1827. Outros nomes importantes e pioneiros: Henrique Fleiuss, 1861, com Dr. Semana e Wilhelm Busch, 1865, com Max e Moritz, garotos travessos - publicados no Brasil como Juca e Chico na tradução de Olavo Bilac.

         Marco importante, porém ausente de muitas publicações, foi que um italiano radicado no Brasil, Angelo Agostini(1843-1910), desenhou e publicou, dia 30 de janeiro de 1869, na revista "Vida Fluminense" os quadrinhos "As aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma viagem à Corte".

           Outro marco importante da história das Histórias em Quadrinhos deu-se em 1860 quando Gustavo Doré tentou ilustrar uma piada. Era como se tivesse dado o pontapé para a partida das criações de personagens em quadrinhos. Pois, em 1865, Richard F. Outcault criou o Yellow Kid que, muito depois, em 16 de fevereiro de 1896, apareceu no jornal New York Sunday World - publicado somente aos domingos como sugeria seu título. Tal acontecimento foi resultado da insistência do técnico do jornal, Benjamim Day, que precisava testar uma tinta amarela com um secador especial e o camisolão do garoto, com frases tiradas de charges políticas, foi pintado com a cor. Note-se que o nome de Garoto Amarelo era referência a um menino pobre das favelas de Nova Iorque.

          Um ano antes, em 1895, Christophe, pseudônimo de Georges Colomb, criou A família Fenouillard, no entanto o mérito de Outcault foi o de introduzir os balõezinhos contendo as falas dos personagens e a ação fragmentada e seqüenciada, as tirinhas, iniciando nova forma de expressão. Novos sinais gráficos aparecem nas aventuras de Os sobrinhos do capitão, em 1897, criação de Rudolph Dirks. Os desenhos eram até, então, divididos em quadros acompanhados de legendas, dando continuidade às ações. e, não demorou muito para que Quadrinhos(*) passasse a ser definido como a arte de narrar uma história através de seqüências de imagens, desenhos ou figuras impressos, colocando-se os diálogos e os pensamentos dos personagens e a própria narração dentro de espaços irregulares delimitados no formato de figuras geométricas popularmente chamadas de balões. Estes originaram-se dos filactérios, faixas com palavras escritas junto à boca dos personagens, usadas em ilustrações européias desde o século XIV.

       Para se ter uma idéia da importância dos quadrinhos, eles estão até em museus. No acervo do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque encontra-se alguns originais de Little Nemo, criado em 1905 por Winsor McCay, justamente no ano que foi publicada a primeira revista brasileira de quadrinhos: "O Tico-Tico". Os desenhos de McCay, além da riqueza e criatividade no uso das cores, têm traços surrealistas, enquadramentos panorâmicos, grandes perspectivas arquitetônicas, jogos de corte e seqüências, os quais prenunciam o cinema de vanguarda. Quando Walt Disney lança Mickey Mouse, em 1928, os quadrinhos, ao contrário, é que já estão sofrendo influência do cinema cor cortes rápidos, angulação variada e a ação seriada dos episódios, mas ainda são tão importantes que não demora para Mickey Mouse migrar do desenho animado para os quadrinhos.

        Em 1929, há uma mudança significativa na produção das HQs: personagens infantis e seus familiares, com traços cômicos, são produzidos concorrendo com histórias de aventuras de Tarzan, herói das selvas imortalizado nos traços de Burne Hogarth, e Buck Rogers, ficção científica retratando o século XXV. Novo heróis vão surgindo: Tintin, adolescente, escoteiro e repórter, acompanhado do seu cão Milou e Popeye, o marinheiro comedor de espinafres que causa até o aumento do consumo dessa verdura em vários países.

        O sucesso das histórias de aventuras leva o Chicago Tribune a encomendar os quadrinhos do detetive Dick Tracy(1931) a Chester Gould, o qual influenciará, com seus traços, os cineastas Alain Resnais e Jean-Luc Godard. Por sua vez, o cinema expressionista alemão e os cineastas Hitchcock e John Ford influenciam os quadrinhos de Alex Raymond (1933 - Flash Gordon), Milton Caniff (1934 - Terry e os piratas) e Hal Foster (1937 - O príncipe valente).

         Foi assim que, além de vários personagens inventados, literários clássicos e de mitologia também passaram a ser contados em quadrinhos, transmitindo cultura a pessoas de todas as partes do mundo. Dessa forma, o Gibi tornou-se um importante meio de comunicação, influenciando a música e o cinema, passando a modificar o cotidiano das pessoas. Na América Latina, durante as ditaduras militares, surgiram heróis como os Fradinhos, do Henfil, a Graúna e Rango, um personagem visando denunciar a fome. No Brasil, contemporâneos de Henfil, fizeram e ainda fazem sucesso: Angeli, Maurício de Sousa e Ziraldo.

          Vários desenhos foram e são usados para promoções eleitorais ou campanhas governamentais. Durante a II Guerra Mundial, por exemplo, era fácil encontrar os Super-heróis lutando contra os nazistas e os japoneses tanto que, em 1940, o Super-homem foi acusado de "judeu sujo" pelo jornal Das Schwarze Korps por ter auxiliado a destruir os alemães. Hoje, os quadrinhos estão por toda parte, podendo servir tanto para o divertimento quanto para uma campanha de economia de água ou alerta dos riscos de doenças como a cólera e a AIDS, sempre trazendo uma mensagem e, nela, uma ideologia.

 
 

Marcimedes


Notas:
* Atualmente, as HQs, em Portugal, são conhecidas como histórias aos quadradinhos; nos EUA são comics; na França são bandes dessinées, fumetti na Italia, tebeos na Espanha, historietas na Argentina, muñequitos em Cuba e, já muito conhecidos no Brasil, os mangás japoneses.


Referências bibliográficas:

Augusto, Sérgio.  Nossos primeiros heróis de papel estão de volta.  O Estado de S. Paulo, Caderno 2002, p. D6.

Augusto, Sérgio.  Brasil sorri amarelo no centenário da HQ.  Folha de S. Paulo, Folhateen, 1995, p. 6-1.

Augusto, Sérgio.  Uma festa de quadrinhos na Biblioteca Nacional. O Estado de S. Paulo, 26 de outubro de 2002, p. D6.

 Quadrinhos.  Almanaque Abril.  SãoPaulo, Editora Abril, 1995. pp.724-729.

Quadrinhos - literatura do século.  Revista Vozes.  Rio de Janeiro, Editora Vozes, ano 63, julho de 1969, n. 7.  pp. 1-53

 


© Todos os direitos reservados.