AS CRIANÇAS NASCEM NOS JARDINS DE OURINHOS, CIDADE NATAL DE JESUS(*)
Nasci no meio da praça antes que o galo cantasse três vezes. A cigana leu a linha da vida da palma da minha mão para revelar: a mãe de cada um dos mortais não é virgem e você não é o menino Jesus. É Natal! Você é o cidadão de Ourinhos, cidadão do mundo! Sorri. Cadê papai? A outra cigana leu a linha dos mistérios para sussurrar: seu pai morreu. Papai Noel não vem! Chorei. Cadê mamãe? A terceira cigana olhou para a praça natalina, encheu seus olhos de verdes e flores (vi a fonte dentre e dentro deles), rebuscou as linhas das mãos como se as organizassem e interrogou todo o meu corpo, para exclamar: você é natural de Ourinhos, natural da praça e a praça é do povo! Você é do povo! Desolado, insisti: Cadê mamãe? As três ciganas carinhosas responderam: somos três, não podemos ser sua mãe? Viemos guiadas pelas estrelas e vimos uma constelação parar e pairar no céu, bem acima e em cima da praça, anunciando muitos nascimentos nesse Natal. Vimos quando brotou do jardim. Sorri, antes de resmungar: crianças não nascem nos jardins. Mas, surpreso, verifiquei três pares serenos de olhos me rodeando com brilho e graça, ao mesmo tempo que ouvi em coro: tudo e todos nascem como flores ainda que as sementes não tenham escolhido o jardim. No jardim da existência, mesmo um homem como você consegue nascer aos trinta e cinco anos. É Natal! As crianças nascem nos jardins. Um sorriso incomodou meus lábios: é onde nasceu o menino Jesus? Uma cigana assentiu: conta-se uma história onde um rei mau perseguia as crianças que nasciam e as matava. Uma delas, no entanto, escapou e foi viver em uma cidade, a mais longe possível do rei mau. Os gritos das crianças mortas incomodavam o sono e o sonho do rei virou pesadelo. Todos os dias, ele se olhava no espelho enorme do quarto real, um espelho mágico, e perguntava: espelho, espelho meu, existe na Terra outro rei que não seja eu? O espelho respondia: sim, Jesus, ele nasce sempre em Ourinhos. Onde fica? – perguntava o rei. O espelho mágico respondia: Ourinhos fica no coração do povo. O rei queria, então, matar o coração do povo onde estava Ourinhos e Jesus nascia sempre, mas quando perguntava: onde fica o coração do povo? O espelho mágico calava ou ria, porém jamais indicava o lugar. Assim, até hoje Jesus continua nascendo em Ourinhos.
Marcimedes
(*) Publicado em dezembro/1994 no informativo Cultura da Prefeitura Municipal de Ourinhos.
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