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A INTERNET COMO EXPRESSÃO  DA INDÚSTRIA CULTURAL
CONCLUSÃO

 
       Adorno, quando analisa a tecnologia, entre vários aspectos, enfatiza o duplo significado da formação cultural quando se reporta à televisão; o duplo caráter da cultura que tanto remete à sociedade quanto intermedia esta e a semiformação; a ausência da busca do lucro em partes da indústria cultural, a qual só tem sentido quando pensada como geradora de capital; a apropriação pela massa da produção individual de maneira que cada indivíduo manifeste comportamentos comuns como se fossem criativos e o impedimento da individualidade pela própria indústria cultural que dela usa como matéria prima para transformar indivíduos em massa.
        Ainda que minha análise tenha se utilizado dos referenciais de Adorno e de outros autores que se aproximam de sua abordagem, ela se afastou da dialética e se firmou mais como uma crítica pessimista da utilização das Redes Interconectadas e, em particular, das salas de bate-papo. Tentei me aproximar de uma abordagem dialética ou de apontar o que a Internet tem a oferecer de contribuição à sociedade: o ensino à distância, os canais de pesquisa e de informação, a troca de correspondências, o bate-papo contribuindo para a formação cultural, etc. No entanto, toda vez que me ocorria elogiar algum aspecto da rede, logo me deparava com uma angústia que somente se resolvia quando eliminava o elogio. A velocidade da rede parece que torna tudo incerto. Até a troca de correspondência, em geral considerada um aspecto positivo, causa um incômodo enorme ao usuário. A incerteza de seu envio e do seu recebimento, por mais que o sistema confirme, persiste. A velocidade de transmissão também induz a uma resposta rápida, a qual nem sempre é adequada. A facilidade e a velocidade servem mais ao capitalismo que de tudo se apropria, que despeja diariamente a publicidade nos correios eletrônicos e amplia as ofertas e as vendas através da rede.

        Adorno, certamente, destacaria o duplo papel da rede servindo à formação e à deformação individual. No estágio atual, porém, a rede me pareceu pouco propícia para servir à formação.
       A estandardização é uma barreira intransponível. As variações oferecidas pela indústria cultural vão além das aparências. Unix, Linux, OS2, Macintosh são sistemas operacionais, que tal como o popular Windows, escondem uma estrutura que foge ao domínio do usuário comum, o qual estabelece contato apenas com a interface de janelas e ícones. Não importa, portanto, qual o sistema que virá a ter o domínio do mercado, a estandardização predominará. Os dados analisados mostraram que ela reforça e é reforçada pelo anonimato que predomina nas relações estabelecidas via rede. Reforça na medida que limita as expressões individuais pelo uso de menus e imagens pré-armazenadas e é reforçada pelos personagens e fantasias repetidos por milhões de usuários. O anonimato, por sua vez, mostrou-se como contribuinte para as pseudo-relações uma vez que, ao permitir a mentira, deixa estabelecer as relações entre personagens e não entre as pessoas e, ao permitir as manifestações dos desejos autênticos, deixa margem ao mistério daquele que se reserva o direito de revelar-se ou não. O fato de cada um contar a sua história como lhe convém e de dar a si mesmo a identidade que quiser é um incentivo à pseudo-individuação.

         Nas relações comerciais, as vendas estão se dando no contato do comprador-empresa, no qual o nome do atendente não mais aparece, diferente do que ocorria nas compras em lojas ou por telefone. Nunca a empresa foi tão bem representada por uma máquina como agora, quando eliminou-se a figura do vendedor. Mais do que transformar todos em pseudo-indivíduos, a indústria atingiu o estágio da eliminação total das pessoas, eliminando-as das relações, outrora, humanas: vende-se sem sequer ter uma pessoa vendendo tal como já vem acontecendo nos terminais eletrônicos com os pagamentos de contas, depósitos, transferências de numerários, sem recebimento e conferência do dinheiro pelo caixa do banco. No bate-papo também já se atingiu o estágio de falar com o computador. Como prêmio de consolação, deixou-se os usuários bincarem de ser várias pessoas no bate-papo o que é exatamente ser ninguém. Diante do quadro exposto, no qual cada vez mais o indivíduo é menos ou nada, fica fácil entender o mundo do glamour que vai ampliando seu império no cotidiano. Os dados demonstraram a glamourização dos pseudo-indivíduos que não medem esforços para aparecer pelo menos por um segundo na mídia como se uma aparição tão rápida e, não raro, equivalente ao tempo de um comercial, pudesse servir à realização.

         Pseudo-indivíduos estão cada vez mais transformados em produções de espírito  e, portanto, reificados sob o império totalizante de uma cultura que os contaminou com a ideologia da virtualidade. Aprisionados em uma indústria que se dá ao luxo de dispensar o lucro ostensivo e de permitir o anonimato com brilho de seus consumidores, estes poderiam ter aproveitado a grande oportunidade para dar um arranque para a autoformação. No entanto, quando muito, as produções de espírito, tal como foram observadas, sugeriram a possibilidade de uma ou outra pessoa despertar da letargia da reificação principalmente quando confrontadas as diferentes versões de si mesmo. Viver a liberdade no meio tecnológico - extensão do indivíduo - é o tempo todo prometida como realização individual quando a liberdade, feita matéria prima da cibercultura, não passa de vã promessa. A massa - ideologia da indústria cultural - é levada pelo engodo de palavras que sugerem  a liberdade tais como navegar, surfar, internauta, ciberespaço, quando a liberdade possível, se é que pode ser chamada assim, é somente aquela que atende ao capital e à reificação, estando longe de proporcionar a autonomia e a auto-reflexão crítica necessárias ao confronto e à resistência á barbárie.

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