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O máximo eu - modelo da normalidade narciso-esquizóide(1)

Autor: Marcimedes Martins da Silva

 

   A modernidade não se define a priori. Não é o atual que é modernidade ou não é moderna a atualidade. A confusão do uso do termo modernidade é geral. O consenso está mais para a utilização das palavras moderno e modernismo como referindo-se às manifestações artísticas e literárias do século XX ou iniciadas no século passado e que já teriam se alterado na década de 30 deste século. Contudo, vários estudiosos abordam a modernidade e a tratam como se todos os leitores de seus textos tivessem uma exata representação do termo. Para tentar fugir a isto, procuro situar, nas próximas linhas, o que é modernidade, pós-modernidade e supermodernidade, antes de discutir o que estou chamando de máximo eu.

   Berman divide a história da modernidade em três fases. A primeira iniciou-se no século XVI indo até o fim do século XVIII. A segunda começou com a Revolução Francesa indo até o século XIX de onde "... se desdobra a idéia de modernismo e modernização." (Berman, 1987, p. 16). A terceira fase é a do século XX no qual o processo de modernização toma o mundo todo. Julgando a colocação de Berman, tendo a acreditar que a modernidade de fato só teve início no século XIX e avançou pelo século XX. É que as mudanças de costumes ocorridas entre os séculos XVI e XVIII alteraram a vida social, porém não conseguiram me impor a visão do que é de fato moderno. Moderno é nova linguagem, é industrialização, é urbanização acelerada. A modernidade se constata, por exemplo, quando se compara o registro de apenas 420 profissões no século XIX, segundo Augusto Comte, com 24.000 profissões contadas pela UNESCO em 1963, enquanto até o século XVIII enumerava-se apenas 90. Tais números indicam uma característica inquestionável da modernidade - a velocidade - que se reflete na ocorrência de transformações rápidas na vida social e econômica, lembrando que cada especialidade profissional requer a criação de palavras e instrumentos próprios a cada campo de atividade. Não é tão fácil detectar se a modernidade é passado ou continua e se, hoje, se vive na pós-modernidade ou na supermodernidade. Pode-se, quando muito, afirmar que o terrorismo, a globalização e a midiatização estão a indicar o fim da modernidade e o início da pós-modernidade ou supermodernidade. É que a tecnologia utilizada, atualmente, começa a interferir na estrutura da sociedade e na ordem econômica mundial com um novo padrão de comportamento imposto pela informática. A insegurança pessoal atinge os limites do inaceitável quer seja no emprego, dentro de casa ou nos lugares públicos. O terror pode chegar através de uma carta-bomba, carro-bomba, homem-bomba e também via guerra, desemprego, informática. Uma volta na história mostra o trabalho dentro de casa e a guerra mais localizada, nas frentes de batalha. Depois, na modernidade, as grandes indústrias e os centros comerciais imperam, mas o risco do terrorismo não é ainda alarmante, os meios de comunicação e transporte ainda são lentos e a Terra ainda demora para ser atravessada. Na pós-modernidade ou supermodernidade, o terror pode ocorrer onde menos se espera; as pessoas estão trabalhando na própria moradia, mas têm como patrão uma grande aglomeração industrial localizada em outro país e as compras, via informática, não são mais realizadas nos centros urbanos, porém em qualquer lugar da Terra, sem sair de casa. É a era do máximo eu, um novo modelo de eu psíquico. Lasch (1986) descreveu como o eu se contraiu dentro de um núcleo defensivo, assediado pela adversidade, sendo exigido um eu mínimo para se manter o equilíbrio emocional. Porém, dez anos depois, o ser humano, "... o último ramo desviante da árvore da vida..." (Morin e Kern, 1995, p. 43), ganha tentáculos tecnológicos interativos. O olhar permite ver, entrar e atuar. O corpo, através do olhar, ocupa diferentes espaços em um curto tempo. Merleau-Ponty afirma que "...nosso corpo não está primeiramente no espaço: ele é no espaço." (1994, p. 205), e que "A espacialidade do corpo é o desdobramento de seu ser de corpo, a maneira pela qual ele se realiza como corpo." (1994, p. 206). O acesso ao objeto, que é obtido pelo olhar, é a possessão deste a fim de continuar a exploração do seu interior. Navegar, via informática, é ser diferente porque reafirma que ninguém está diante do próprio corpo, mas está em um corpo e, melhor ainda, é o corpo. O exemplo do cego, citado por Merleau-Ponty, demonstra que a bengala, tornando-se um instrumento familiar, começa a perceber o mundo a partir da sua extremidade e não mais a partir da epiderme. Navegar, na infovia, é fazer um caminho inverso: para o cego, o mundo recua para extremidade da bengala; para o infonauta, o mundo entra para dentro do corpo e se amplia a medida que seu olhar sai pelo passeio informático. O olhar toma posse para tornar o corpo possuído e expandido. A televisão e o vídeo, de certa forma, já introjetavam conteúdos perceptivos no corpo como se este andasse por outros lugares, porém o microcomputador permite sair da passividade da recepção e entrar na imagem, no jogo, na ação. O corpo passivo torna-se ativo e se passa a integrar a imagem. Cai a fronteira entre corpo-carne e corpo-imagem. É fundido um corpo-tecnológico. Mais ainda, diferentes experiências de vida podem não só serem conhecidas como também compartilhadas através de jogos, batalhas ecológicas, lances administrativos, entre outras possibilidades. Enganam-se aqueles que pensam que a ação individual é mera ficção, passando o infonauta a ser apenas mais um personagem na tela do micro. O jogo ou lance estratégico pode se situar no campo virtual, mas também pode interferir nos acontecimentos políticos, sociais e econômicos mundiais.O Comandante Marcos, no México, soube utilizar um microcomputador tipo notebook para favorecer a guerrilha e, para desespero de cientistas e governantes, os hacker - confundidos com piratas da informática - estão invadindo pesquisas e documentos secretos. Eis de volta uma sensação de onipotência aparentemente nova, porém que  nunca deixou de estar presente no ser humano desde que se acreditou criado à imagem e semelhança de Deus. A questão é como a psique continua aprisionada enquanto o eu se maximiza. Não há tempo de reflexão diante do terror praticado pelos indivíduos, pelos grupos ou pelas nações. Resta "engolir" tudo, todas as imagens, incorporá-las. A alteração corporal não poderá prescindir o surgimento de um novo eu psíquico entendido como modelo de normalidade. Este modelo, apesar das divergências, tem que ser discutido mesmo diante das críticas mais mordazes como, por exemplo, a de Iraí Carone (1995) : "...ainda vivemos na pré-história da individualidade, de modo que aquilo que denominamos psicologia nada mais é do que a ilusão que acompanha, como uma sombra, a nossa própria ilusão de existirmos como indivíduos. Nós não somos indivíduos ainda, nós nos representamos, ou seja, a categoria indivíduo é uma falsificação ideológica, porque há condições objetivas impeditivas para a realização da individualidade. Indivíduo só é um termo do futuro, não do presente."

   Tentando uma alternativa, para não utilizar o termo indivíduo, tenho que falar em humanidade, coletividade, sociedade, e daqueles que, somados, possibilitam que existam e, divididos, possibilitam a análise uns dos outros. Não é indivíduo, mas é um ser neurótico considerado normal. Melhor, era um ser neurótico normal, porém hoje tal modelo não serve mais. Freud, Reich e outros estudiosos da psique humana observaram os normais neuróticos. Nós observamos outros normais, perguntando que traços possuem em comum e que aceitam compartilhar sem internar e excluir o outro. Lasch (1983) aponta para o domínio da cultura do narcisismo na qual  impera a ansiedade, a ameaça representada pelo outro, desejos sem limites, atitudes sexuais mais permissivas do que puritanas : o centro é o eu. Ocorre que da época - 1979 - que Lasch escreveu para hoje - 1996 - a velocidade alterou o narcisista, principalmente a velocidade das imagens, quer sejam as paisagens vistas pelas janelas de carros velozes ou de brinquedos de "Playcenter", quer sejam as imagens da televisão e do microcomputador. O narcisista está com dificuldade para se adaptar a tantas imagens por segundo. A velocidade aumenta e o objeto se distancia mais rapidamente sem ser apreendido como era antes. O desafio ao poder de separação temporal do olho está sendo ganho pela imagem. O eu está descentrado, não tem lugar ou, em outras palavras, a identidade é plural, excedendo. O máximo eu é do tipo narciso-esquizóide: sozinho, mas se acreditando mundo, e interpretando por e para si as informações, se desloca rápido, passando por cima dos seus iguais, ascético e frio. O olhar não localiza o próximo, porém aquilo que está distante, principalmente quando aparece na televisão ou no monitor. De repente, e até mesmo de forma assustadora, o vizinho aparece na tela e aí se toma conhecimento do que está próximo. A sensação, porém, não é de intimidade e, sim, de estranhamento, muitas vezes se deparando justamente com a apresentação dos conteúdos psíquicos, os mais íntimos, do vizinho. O tentáculo interativo do corpo-tecnológico estabelece a relação midiática com o próximo podendo, então, transformá-lo em ameaçador ou amigo. Infelizmente, a atualidade costuma se caracterizar mais pela ameaça que todos sentem diante de cada um ou que cada um sente diante de todos. O perigo está em toda parte e é preciso grade nas janelas e várias fechaduras nas portas, as quais não impedem, no entanto, a entrada da violência e sua manifestação dentro do próprio lar e, muito menos, consegue sufocar os desejos de quem quer se expandir pela informação, pelo conhecimento, pelo poder e pelo consumo. As janelas das publicações, do vídeo, do telefone, do microcomputador atuam como interfaces entre o prazer e o desejo reprimido. O mundo está acessível e, ilusoriamente, sob domínio. O narciso-esquizóide se aprisiona na própria onipotência e o outro, ameaçador, é ignorado ou usado, podendo facilmente ser descartado tanto quanto pode atacar. Não surpreende, assim, que o psicólogo israelense Gabriel Weil tenha declarado, em março de 1996, no tribunal, que Yigal Amir, assassino confesso de Yitzhak Rabin, tem tendências narcísicas e esquizofrênicas, mas é mentalmente são. O máximo eu admite como sua qualidade de vida a desumanização o que, muitas vezes, se facilita e se incentiva pelas novas tecnologias e excessiva comunicação, além de um fanatismo, que não é de hoje.

   Restaurar valores, preservar identidades, conservar culturas, manter idiomas e promover a tradição religiosa são aspectos, entre outros, levantados para se falar em humanização ou re-humanização do ser perdido entre os avanços tecnológicos e a escravatura do máximo eu. As exigências se impõem pelos poderes acobertados pelo abstracionismo, portanto com interesses esquisos, auxiliado pela tecnologia. Quem executa o que lhe é ordenado deve ser reconhecido por ter dado o máximo de si mesmo. Quem comanda tem que simular que está dando o máximo de si mesmo fazendo usufruto do trabalho dos comandados. A velocidade proporcionada pela tecnologia, quando dá ao trabalhador o bem estar da economia de tempo, acaba por reverter isto em mais tempo para ser explorado e sofrer. O tempo, que teoricamente, seria ganho seu, converte-se em lucro do capital. A queda das fronteiras não passa de nova forma de prisão que altera a identidade pela falta de tempo e espaço para o ócio e a reflexão. No trabalho ou em casa, a realidade virtual - uma nova ideologia?(2) - ilude através de ícones e simulacros. O sonho de cada um é o ter e, tendo, ser considerado indivíduo. Não tendo, uma saída é a busca de identificação com um ícone, passando a vivenciar a iconoplastia: um fã quer devorar ou possuir o ícone, acreditando poder assim dominá-lo, uma vez que projetou sonhos, esperanças e frustrações no objeto de desejo. É a aceitação da simulacrocracia: a submissão às imagens onde não há falso ou verdadeiro, pois o falso é igual a verdade, restando somente representações de representações que agradam a todos. As representações dependem da participação do olhar esquizóide de narciso na resolução de imagem apresentada pelo vídeo ou pela televisão. O verdadeiro é o transmitido pela televisão e, por isto, o eu tem que sair de espectador e passar a ser imagem. O eu sem corpo-tecnológico não é eu. Daí a intimidade tem que ser possuída por este corpo-tecnológico. É preciso expor o psicológico e se tornar o máximo eu diante de todos. Ir para a televisão, ser transmitido não importa o preço, é a oportunidade de exposição do eu e de nova identidade - a de herói nacional ou, na era da globalização, internacional. O máximo eu retorna à casa pela porta aberta da televisão, mas correndo o risco de ser obrigado a fugir pela porta dos fundos, à noite, travando uma luta na qual tudo o que se quer é ter individualidade e ser, finalmente, chamado de indivíduo, ainda que rotulado de narciso-esquizóide, um ser normal.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AUGÉ, Marc. Não-lugares - introdução a uma antropologia da supermodernidade. Trad. de Maria Lúcia Pereira.

      Campinas : Papirus, 1994. 111 p. (Coleção Travessia do Século).

AUMONT, Jacques. A parte do olho. In: A imagem. Trad. de Estela dos Santos Abreu. Campinas : Papirus, 1993. 317 p.

      pp. 17-76. (Ofício de Arte e Forma).

BERMAN, Marshall. Modernidade - ontem, hoje e amanhã. In: Tudo que é sólido desmancha no ar - a aventura da

     modernidade. Trad. de Carlos Felipe Moisés e Ana Maria L. Ioriatti. São Paulo : Cia das Letras, 1987. 360 p. pp. 15-35.

CARONE, Iray. O lugar da psicologia nas ciências sociais. Jornal do CRP. Conselho Regional de Psicologia - 6a. Região.

     São Paulo, maio/jun. 1995. p. 3-5. /Entrevista/.

Israel pode relaxar bloqueio na faixa de Gaza. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 13 mar. 1996. p. A-12.

MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo : Martins Fontes, 1994. 662 p.

MORIN, Edgar e KERN, Anne Brigitte. O cartão de identidade terrena. In: Terra-pátria. Trad. de Armando Pereira da

    Silva. Lisboa : Instituto Piaget, 1993. 163 p. pp. 35-52.

LASCH, Christopher. A cultura do narcisismo - a vida americana numa era de esperança em declínio. Trad. de Ernani

    Pavaneli Moura. Rio de Janeiro : Imago, 1983. 320 p. (Série Logoteca).

 ________________. O mínimo eu -sobrevivência psíquica em tempos difíceis. Trad. de João Roberto Martins Filho. São

    Paulo : Brasiliense, 1986. 287 p.


© Todos os direitos reservados 1999.

(1) Artigo publicado na Revista da APG - Revista da Associação dos Pós-Graduandos da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Ano V, n. 9, 1996, São Paulo. pp. 191-196.

(2) As Ciências Sociais não podem deixar de discutir este assunto pois os governos, limites, fronteiras e as relações humanas estão impregnadas do virtual.

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