|
|
ATO INSTITUCIONAL
AS ONDAS
A REDE
DESTINO
Olhei para o horizonte do espetáculo
e no meio do eclipse do bem e do mal
a massa de juízes e réus
era uma bola caindo no precipício.
Diante dos genocídios do presente, do
passado e do futuro, não calo.
Decreto o fim da poesia em um poema sem versos.
Rasgo minhas vestes diante dos covardes condecorados da história oficial.
Tiro meu chapéu para os heróis anônimos que desfilam descalços pelas ruas da
cidade.
Entre cães e cãs, assisto mudo a marcha no feriado da vida.
Nas sendas da vida, tornei-me um pesquisador de atalhos.
Acabei atropelado pelas armadilhas das estradas sem horizontes.
Dispenso todas as medalhas do século XX.
Os heróis receberam as honras da mutilação.
Foram sacrificados sobre os altares das suas próprias casas.
Os condecorados ostentam no peito o orgulho de serem assassinos.
Lições que a vida nos ensina, a natureza nos dá.
As ondas do mar, como nós, nascem sozinhas.
No entanto, no caminho até à praia, dão-se as mãos para morrerem juntas,
quebrantadas.
Longe da morte para sempre, parte volta ao mar para depois nascer feito nova
onda.
Emoção maior é ver quando uma onda não morre antes.
Outra lhe socorre, a mais forte dando forças para a mais fraca continuar o
seu caminho.
Mas se a morte chega, dignamente acaricia a praia.
Tenha certeza das aparências : as casas são prisões com dependências isoladas pelas barras de tvs, aparelhos de sons e microcomputadores ostentando teclas e telas digitais que trazem desconhecidos para dentro dos mortos-vivos e levam zumbis conectados, todos presos na velocidade elétrica, neural e neurótica.
Todos os direitos reservados.