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A trama política da comunicação                    As intenções do suicidado

         Nosso pensamento é que há motivos múltiplos para um só suicídio e que um ou outro motivo
seria apontado, dependendo do referencial utilizado. Por exemplo, um mesmo bilhete  deixado por
um  suicidado poderia levar a se classificar seu gesto como egoísta ou narcisista.

 
          Para Durkheim(1987), há três tipos de suicídios: egoísta, altruísta e anômico, reconhecendo que "(...) nem sempre a experiência nos dá exemplares isolados e puros." (p. 285) De fato, através das metamensagens, é possível perceber que os suicidados se referem ao seus gestos efetivos de suicídio de forma ambígua, dificultando classificá-los:

"Não quero que sofra mais. (...) minha única vitória é sua felicidade.

Faço isso pensando em mim...

Faço isso pensando nos outros..." (M, 20)

"Sei que estou tendo uma atitude um tanto egoísta..." (M, 35)

 
          Para a Psicanálise, o indivíduo vivencia o instinto de vida versus o instinto de morte e, se o
ambiente lhe é desfavorável, a agressão pode se voltar contra o ego. Assim, o que Durkheim
classifica como suicídio egoísta ou suicídio altruísta, um psicanalista pode analisar como sendo
resultado do conflito instinto de morte versus instinto de vida, ou verificar os desejos de matar,
morrer e ser morto apontados por Menninger(1970). Continuando com os exemplos, para o
suicidado de 20 anos, uma análise psicanalítica possível é a de que nele o instinto de morte está,
inconscientemente, dominando por causa do seu desejo de morrer: "... finalmente descanso." O
suicidado de 35 anos também declara seu desejo de morrer, com a diferença de fazê-lo
conscientemente:  " ... só me passa pela cabeça esta idéia de morte fixa...", esperando ser punido :

"... vou pagar por isto."

 
          A visão geral psicanalítica,  segundo Manhães (1991), interpreta o suicídio como sendo
decorrente de uma doença mental. Este estudo se preocupa em analisar o suicidado como pessoa,
acreditando que há uma lógica normal no pensamento de todas as pessoas rotuladas como anormais
e que tal lógica é taxada de anormal somente por se afastar daquela socialmente aceita. O conflito
vida versus morte é próprio do ser racional e o suicídio resulta de um processo de comunicação
mental que culmina em comunicação social.

 
          Mesmo para Dias(1991), cujas reflexões caminham nesta direção, tentando descrever
mecanismos específicos da dinâmica sócio-psicológica, a análise se restringe ao tabu da morte e ao
suicídio carregado de traços narcisistas.O narcisismo do suicidado de 20 anos é o de amar seu
próprio ego no outro, a ponto de escrever: "... minha única vitória é sua felicidade."O homem de 35
anos apresenta o traço de egoísmo que e associado ao narcisismo: "Sei que estou tendo uma atitude um tanto egoísta..."
          As análises apresentadas significam um avanço no entendimento do suicídio, mas ainda que
os pesquisadores tenham se esforçado em  considerar o suicidado e a sociedade onde ele se insere,
a atenção acaba  se centralizando ou no indivíduo ou no grupo social, não captando a trama de
comunicação presente na relação suicidado-sociedade. Dias(1991) é quem mais se aproxima do
ponto que está sendo levantado neste estudo, mas sua tentativa termina centrada no sujeito:
"Pode-se, então concluir que todo suicídio é uma maneira de comunicação com os outros que se dá
através da morte do sujeito. (...) O suicida precisa morrer para falar. (...)   Esta comunicação
mediatizada, seja via carta, bilhete, fita de áudio e, quem sabe ate, daqui a pouco, fita de vídeo,
limita-se a uma comunicação auto-referente, narcísica, fechada em si mesma." (p. 136)

 



As intenções do suicidado

                                                  

          Uma análise mais detalhada das metamensagens revela  que os suicidados estão se dirigindo a outras pessoas alem daquelas para quem o bilhete foi, de início e explicitamente, endereçado. Assim, a mulher de 22 anos dirige-se a "Carlos", mas também "... a minha mãe...", ".. a todos e a Deus", a ponto de terminar com uma frase confusa: "Sem Ele não viver mais." Ele quem: Carlos ou Deus? Também a mulher de 27 anos explicita em parte do bilhete "... ao meu amigo João...", depois de tê-lo endereçado "A quem possa interessar".

            A análise revela, então, que os suicidados escreveram para 27 pessoas (aparecem 27 nomes próprios) identificadas; escreveram para suas mães, filhos, filhas e parentes; escreveram para Deus; escreveram para todos e para as autoridades, ou seja, se manifestaram junto às três mediações sociais -família, Estado e religião, no sentido de que sejam mais do que meros receptores da comunicação: sejam fontes de realimentação que transmitam o signo suicídio acompanhado de suas metamensagens. Eí-las:

"Diga a ela que eu a amo muito também..." (F, 22)

"O que resta, é  minha vontade que seja entregue ao meu amigo João; o qual poderá dar a meus
pertences o destino que lhe aprouver." (F, 27)

"... não choquem Antônio e Maria" (F, 60)

"Peço as autoridades de não divulgar meu caso..." (F, 64)

"Favor avisar as seguintes pessoas:" (M, 20)

"Avissem o Deputado ...

Ele tomará as providências para avisar em São João da Boa Vista. Assim, não ficarão esperando
que eu apareça por lá, um dia qualquer." (M, 53)

           As providências que o suicidado pede excedem as materiais do tipo "Isto é para..." (M, 33) ou "O cheque n. .... deve ser usado para cobrir parte das despesas sendo que o restante deve sair das cadernetas de poupança." (M,22)  Ele quer que sejam tomadas providências de natureza psíquica também. Dias(1991) escreve:

 
"Ao lado de Deus, ele decidirá sobre o próprio destino e o destino dos outros viventes ou
influenciará e determinará o que estes outros sentirão após sua morte. O suicida, de um lado,
sente-se derrotado, de outro, quer poder: o poder de controlar a mente alheia e impor a tudo o seu
foco." (pp. 141-142).

 
Desta forma, os suicidados direcionam os conteúdos de suas metamensagens de forma a se constituírem e se subdividirem em bilhetes-testamentos, bilhetes-confortos, bilhetes de advertência, bilhetes de acusações e/ou protestos, ou simplesmente bilhetes de despedida:

bilhetes-testamentos

Eu,  Márcia, dou meus olhos, meus cabelos e meu sangue a quem precisar."  (F, 22)

"Nada deverá ser entregue a qualquer parente meu." (F, 27)

bilhetes de despedida

"Adeus para todos vocês " (F, 30)

bilhetes de advertência

“... não choquem Antônio e Maria." (F, 60)

"Veneno Cuidado" (M, 22)

"Cuidado, a arma é automática e pode disparar sem mais ou menos." (M, 28)

bilhetes-confortos

Eu estou feliz, não chorem." (M, 22)

bilhetes de acusações e/ou protestos

"’Mãe’ - eu não quero ser mais uma ovelha desse sistema" (M,15)

"Esta faca em meu corpo é para ser entregue a Doralice para cortar esta língua felina que também
destruiu o meu casamento Amém" (M, 33)

 
          É óbvio que os exemplos acima não esgotam a análise possível de ser feita nas diversas metamensagens.    Servem, no entanto, de apoio para fazer um paralelo entre as intenções manifestadas no bilhetes e as intenções ou motivações que levam ao efetivo gesto suicida:

bilhetes de acusação = suicídio por vingança/intenção agressiva

bilhetes de conforto/testamento/despedida = suicídio por abnegação, por amor

bilhetes de advertência = suicídio de advertência

bilhetes de protesto = suicídio por protesto.

 

          Aprofundando a análise, verifica-se que estas intenções são ataques diretos às mediações sociais:

"Nada deverá ser entregue a qualquer parente meu." (F, 27)

"Quanto aos meus restos mortais, suplico encarecidamente, não o torturem com choros, rezas ou velas." (F, 27)

"Logo todos se esquecerão de mim, portanto, não quero velório, flores, choro, mas sim uma cremação pura e simples e que minhas cinzas sejam jogadas em alto mar, pois não quero deixar marcas em um mundo que nunca me notou." (M, 28)

"Creuza o que eu mais queria na minha vida era filhos e você me tirou este prazer de um homem. Então para que ser homem  Amém." (M,33)

"’Mãe’ - eu não quero ser mais uma ovelha desse sistema." (M, 15)

"Tentei transmitir amor, paz, compreensão, amizade, para um mundo que já se esqueceu de tudo isso." (M, 28)

 

           Esta agressão à sociedade é ora dirigida a alguém em particular e ora dirigida à família e a todos. O suicidado, através   das metamensagens, esclarece a agressão do gesto que por si só consegue violentar mais pessoas do que um assassinato. No homicídio, a violência é dirigida, depositando culpa em pessoas específicas, resultando dúvidas quanto a culpa da sociedade. No suicídio, não resta duvidas. Ainda que não se negue a responsabilidade individual do ato, a sociedade não tem como fugir de sua quota de culpa. Ao suicidado pode-se até atribuir a manipulação desta culpa social. Isto porque os vivos tendem a colocar uma auréola nos mortos e, mais especificamente no caso do suicidado, este se serve do bilhete como se fizesse um trabalho de auto-retrato, onde retoca suas imperfeições para transformá-las em virtudes diante da sociedade,
cabendo a esta toda a culpa porque ele foi capaz de se sacrificar por todos. Augusto Nunes, cronista, escreve dia 27 de maio de 1990 no jornal "O Estado de São Paulo", a respeito do bilhete deixado por um aluno de 14 anos de idade, do Colégio Militar do Rio de Janeiro, que se matou:

 

"O bilhete não faz nenhuma menção aos algozes do autor - seja para absolvê-los, seja para
condená-los. Os carrascos do Colégio, da mesma forma que a palavra morte, não aparecem no
texto. Que no entanto desenha, entre a primeira linha e o ponto final, um claro retrato dos
assassinos."

 

A carta, reproduzida abaixo, foi publicada no  jornal "Folha de S. Paulo", dia 18 de maio de 1990, pagina C-6:

 

"Mãe,
 Desculpe-me pelo que acabo de fazer, mas não tive escolha, você não merecia ouvir aquilo ontem de manhã, não lhe culpo pelo que me fez e disse, afinal você é mãe e não está errada por isso, desculpe-me também pela humilhação que lhe fiz passar perante todos os alunos do Colégio e perante o Capitão. Eu estou indo embora porque cometi um erro, fui punido, mas não agüentei a maior punição que foi de nem ao menos poder olhar nos seus olhos e me desculpar daquilo que na verdade nem cheguei a fazer, é verdade que nem cheguei a colar, no dia da prova eu estava nervoso, peguei o livro, abri, mas não consegui ler não. Não culpe o Clóvis nem ninguém da rua por essa má influência. Os verdadeiros culpados por essa influência foram Barbosa, dos blocos e um colega chamado Veloso, ambos de minha sala, na verdade eles estavam colando (peço que comunique isto ao capitão Costa Vaz).

 Abaixo você tem a quem doar todos os meus pertences:

1. A minha irmã Karine Rodrigues eu deixo: o prendedor de papel, a carteira, o frescobol, o
pogobol, a Poupança, os jogos e as roupas que ela quiser.

2. A minha irmã Claudinéia Bernardina de Oliveira eu deixo: o relógio, o fichário, o estojo novo e o ar condicionado.

3. A minha mãe Magda Rego Rodrigues: a minha caneta com bonequinho, o som, microfone, fone e todos os gibis.

4. Ao meu pai Celestino José Rodrigues Filho: a escrivaninha, a vara de pescar, o molinete, o
carrinho de controle remoto, as bolinhas de gude, a linha 10 e os caminhões da Elka.

5. O skate e o quadro para o meu melhor amigo Márcio Gadelha de Lima (Bolão).

6. A bicicleta, a prancheta e os álbuns para meu segundo melhor amigo Marcelo Gomes de Lima (Bolinha).

7. A Coleção de revistas Mad e a concha para Eduardo (Jatinho).

8. A Coleção de Comandos em Ação para Marcelo (Tonho).

9. A minha farda completa para Clóvis (Primo).

10. O disco Furacão 2.000 para Alexandre (Boca Loca)

11.  As fitas virgens para André (Ximbica)

12. A raquete de tênis para Yury (Bumbum).

13. A Coleção de carrinhos pequenos para João

15. Os bichos de pelúcia e o pintinho da Zorba para Renata e Raquel.

16. Os carrinhos do Paraguai a ficção para Marcos, Leonardo(Boquete) e Leandro.

17. O (ininteligível) do Rambo para Jarnes (filho da Margarida).

Por favor, depois de ler tudo isto, dê tudo aquilo que está aí mencionado.

 Aquilo tudo que eu não escrevi, doe para algum orfanato.

 (ininteligível) dos discos que estão na caixa de som - House Remix Internacional para (ininteligível) e Acid House para Marcelo.

 Obrigado pela vida que você me proporcionou até hoje.

Assinatura"
          Os bilhetes fazem parte de um jogo de representações sociais, podendo cada um deles conter mais do que uma metamensagem, possibilitando que, através de afirmações ambíguas, o suicidado faça um verdadeiro "sanduíche" onde as acusações se confundem com palavras de conforto, com protestos e com suas últimas vontades, fazendo seu testamento de bens materiais e de bens psíquicos. Neste jogo, suicidado e sociedade saem perdedores. A situação é ambígua porque a derrota do suicidado é a única forma que encontra para se tornar vencedor, a partir do que é ressocializado no seu novo papel, exercendo domínio sobre a consciência  dos outros. Ele transforma seu não poder em poder sobre os outros. O processo de comunicação do suicídio é um questionamento de todas as representações sociais existenciais que se tem.

 

Obs: Este texto foi extraído de:

SUICÍDIO - TRAMA DA COMUNICAÇÃO

Dissertação de Mestrado, 1992, Psicologia Social, PUC-SP

Autor: Marcimedes Martins da Silva

 

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