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Comportamento político

          Kalina e Kovadloff(1983) afirmam :

 
"... há uma profunda correlação entre a pessoa que se mata e a família dessa pessoa, assim ela também existe entre esse sujeito e a sociedade em que vive e morre." (p. 65) O sujeito é ele mesmo, e toda atividade que executa, e toda identidade que assume, e toda a sociedade que o cerca. O ser humano atual é, pois, potencialmente  auto-destrutivo porque é armado nuclearmente, é contaminado diariamente e é despersonificado constantemente. É um ser solitário e submetido a um
vínculo educacional totalitário;  um ser que julga se afirmar sobre a aniquilação do outro, sem perceber que também está se matando. A barreira em torno do indivíduo vai se fechando aos poucos. Todos não passam de pacientes terminais, condenados a morte. Preso no labirinto de si mesmo, não se trata mais de encontrar um caminho, uma saída. É preciso quebrar as paredes. Para tanto, é preciso romper os vínculos estabelecidos socialmente, sejam eles  familiares, religiosos  ou
políticos. O suicídio é a maneira radical de fazer isto, atividade que aparenta afastar para sempre o sujeito da sociedade, mas que acaba por agregá-lo no meio social.

 

          Fica claro, conseqüentemente, que se substituir o signo suicídio por outro depende, em ultima instância, do indivíduo, há, participando deste processo, toda influência da sociedade  onde ele está inserido, com a qual necessita manter um forte vínculo existencial. Os índios guaranis da reserva de Dourados, em Mato Grosso do Sul, continuarão se matando porque a substituição sígnica somente será possível através de uma intervenção estatal que restaure a esperança no futuro e a dignidade
humana através de uma reforma agrária e resgate cultural.  É necessário cuidado para que o signo suicídio seja substituído e não reforçado, como parece ter ocorrido  com o suicidado de 35 anos, que escreveu:

"... só me passa pela cabeça esta idéia de morte fixa coisa que na clínica se tornou mais sólida."

Os analistas devem questionar se o método terapêutico que utilizam substituem nos suicidandos os vínculos emocionais que eles apresentam com o signo suicídio. O suicídio ocorre quando o indivíduo se percebe sozinho na rua relação e, por paradoxo, é, ao mesmo tempo, a  maneira encontrada para se colocar no relacionamento com o outro, chamando, muitas vezes, este para assumir sua responsabilidade social:

"Edu estou deixando esta carta para mostrar a você o que sinto e o que estou sentindo." (F, 20)

"Tentei explicar isto a minha mãe: não se preocupe, será impossível te ligar outra vez." (F, 22)

"Foi o mundo, minha família, meu educador..." (F, 27)

"Quero que todos saibam que ninguém é culpado..." (M, 28)

"A médica trocou os remédios..." (M, 56)

 

          Aquele que se mata vive um conflito que qualquer outra pessoa está sujeita a vivenciar, mas
é, sobretudo, o indivíduo que se sentindo aniquilado pelos outros concentra todas as  suas forças em uma só direção: romper o isolamento social que está vivenciando e  ganhar vida. Este movimento, consciente ou inconsciente, remete ao caráter político do gesto suicida.

 
       O suicídio de qualquer pessoa provoca diretamente o Estado, representado tanto pelas famílias, quanto pelas instituições religiosas, médicas, policiais e jurídicas, que se valem de alguns recursos para combater os efeitos do ato suicida. Um destes recursos é a manipulação das estatísticas para diminuir o número de suicídios, aumentando as mortes naturais ou as mortes por acidentes ou por homicídios. Quando é impossível dissimular, resta produzir grande quantidade de papéis oficiais
para encobrir o gesto suicida, destinando, posteriormente,  todos os documentos para arquivo.

 
          Consciente ou não de que seu gesto pode ser dissimulado e abafado, alguns suicidas reforçam seu comportamento político utilizando-se de ações que precedem o gesto suicida  para montar as metamensagens presentes, por exemplo,  nas suas vestes, na escolha de um local ou de palavras esclarecedoras nos bilhetes. É o caso do "punk" de 15 anos que sustenta seu ideal de contestação social nas roupas que devem acompanhá-lo morto "(me faça  um favor de me enterrar como estou)": vestido de jaqueta azul com as mangas cortadas, camiseta fantasia, rasgada na parte inferior, calça rasgada na altura dos joelhos, cueca de malha e adornado com uma corrente com cadeado no pescoço, uma medalha e um parafuso na lapela, calçando botinas. O rapaz segue ao extremo a filosofia "punk" que  é a de que não podendo desfrutar a vida neste  mundo inútil, é melhor procurar a autodestruição para demonstrar que o ser humano é o resultado mesmo da criação dos outros seres humanos: um lixo.

 
          Outro suicidado, um homem de 56 anos, mata-se para denunciar a falência da instituição que o tratou, mas, mais ainda, está denunciando o tratamento psiquiátrico tradicionalmente amparado nas leis estatais, insistindo muito que fez todo esforço possível para se livrar da bebida alcoólica:

 
"Dr. ou Dra.

 
1- Eu era alcoólatra

2- Fui internado três vezes

3- Estou em tratamento no serviço de Psiquiatria há sete anos

4- Porém fazem cinco anos que eu parei de beber, não bebo bebida alcoólica nenhuma, mas nem
cerveja

5- Eu vinha bem durante esse tempo (os cinco anos)...

6- Mas o ano passado (agosto ou setembro) tive uma pequena recaída..

7- A médica trocou os remédios...

8- Agora eu tive esta recaída, mas não foi por causa da bebida, porque realmente fazem cinco anos que eu não bebo nada mesmo."

 

          A suicidada da foto n. 1 (com cerca de 90 anos) chama atenção para o desamparo que atinge as pessoas após determinado tempo de vida, a partir do qual o ser humano é qualificado de estorvo.  A sociedade tende a isolar os idosos, não lhe atribuindo papel algum a ser desempenhado e considera exceção aqueles que tem suas atividades sociais interrompidas somente com a morte natural. Em uma aldeia do Japão,  Moto-Mura, se chegou a estabelecer uma idade máxima -  cerca de 70 anos - para a pessoa morrer. Atingido o limite, a pessoa  tinha  que aguardar a morte na montanha Narayama como relatado no romance de Shichiro Fukazawa que deu origem ao filme "A balada de Narayama".

 
          Avançando na análise, tem-se que não e só Getúlio Vargas que suicidou com "O tiro que mudou a história", peça teatral de Carlos Eduardo Novaes, e não são só aqueles que deixam bilhetes que devem ser analisados. Aqueles que não deixaram bilhetes representam também uma ameaça à ordem imposta pelo Estado. As fotos de seus corpos e todos os outros documentos que compõem os laudos periciais são arquivados. Ocorre que todo suicidado é tratado como homicida e sua pena é o esquecimento nos arquivos oficiais. Veja, na planilha abaixo, como a polícia técnica dissimula o suicídio entre os homicídios:


 

                                               INSTITUTO DE POLÍCIA TÉCNICA 

 

Plantão das....horas de.../... as horas de ...../..../.... 

 PERITO CHEFE DE PLANTÃO : 
------------------------------------------------------------------------------------------- 
   SECÇÕES               NATUREZA DAS OCORRÊNCIAS          TOTAIS 
------------------------------------------------------------------------------------------- 
ACIDENTES DE TRÂNSITO                                        TOTAL PARCIAL 
------------------------------------------------------------------------------------------- 
ENGENHARIA                                                               TOTAL PARCIAL 
------------------------------------------------------------------------------------------- 
 FURTOS  E  DANOS                                                    TOTAL PARCIAL 
------------------------------------------------------------------------------------------- 
                             Acidentes sem intervenção humana 
                             Cadáver retirado d'água 
 HOMICIDIO       Fulguração 
                             Morte a apurar 
                             Reconstituição 
                             Suicídio 
                             Tentativa de homicídio 
                             Vistorias                                            TOTAL PARCIAL 
---------------------------------------------------------------------------------------- 
SANGUE        (...)                                                         TOTAL PARCIAL 
--------------------------------------------------------------------------------------- 
                                                                                      TOTAL GERAL 
--------------------------------------------------------------------------------------- 

 
O Estado, ameaçado pela atividade suicida, se defende. Durkheim, explicando como o Estado
influencia o suicídio, escreve:

 
"Uma única força coletiva sobreviveu a tormenta: foi o Estado. Teve, portanto, tendência, dada a situação para absorver todas as formas de actividade que tinham um caráter social..." (1987, p. 391)

 
          A este comentário, deve ser acrescentado que o Estado continua a absorver o indivíduo após a morte e, em especial, o suicidado porque cada um que se mata questiona politicamente, consciente ou não, toda a estrutura social. Talvez, antes de se matar, visualizando imagens mentais(ícones) do seu futuro gesto suicida, o indivíduo tente atenuar  a condenação social e política, ancorando suas representações sociais em valores advindos da família, da religião e do Estado:

"Juro estar dizendo a verdade, perante todos e a Deus." (F, 22)

"Grande parte do que possuía foi vendida ou doada." (F, 27)

"Deus abençoe esta terra maravilhosa que é o Brasil. "’Amem’" (F, 64)

"Deus é grandioso;... (...)

"Mãe eu te amo

 Eu amo todos vocês..." (M, 22)

"Estou certo que encontrei em você um mundo cheio de luz e fraternidade humana." (M, 27)

 
          Há intenção do suicidado em ser considerado bom e verdadeiro, alguém que doou e amou muito. Por exemplo, a estrangeira deixou declarado seu amor pelo Brasil, como se isto amenizasse a violência do seu gesto.

 
          Entre as citações acima cabe, ainda, um comentário a respeito do "Amém" que aparece uma vez no bilhete da suicidada de 64 anos. O suicidado de 33 anos repete esta palavra cinco vezes.

 
          "Amém" deriva do hebraico "Amen" e significa Assim seja. É uma palavra muito utilizada em diversas religiões para indicar a anuência firme após uma profissão de fé e é, assim, que a suicidada de 64 anos se expressa. Porém, o suicidado de 33 anos coloca Amém nos finais de expressões tanto de vingança quanto de bênção:

"Esta faca em meu corpo é para ser entregue a Doralice  para cortar esta língua felina que também destruiu o meu casamento Amém"

"Para Giane Deus te abençoe és a minha bênção feliz praia pelo resto de tua vida Amém."

 

          Os suicidados atacam as mediações sociais, denunciando que estão querendo um mundo mais humano. Mudanças precisam ocorrer no mundo que também está se matando. Assim, tanto o suicídio quanto as palavras deixadas pelos suicidados, se resgatados dentro de um processo de comunicação, podem e devem influenciar os vivos em suas ações futuras, transformando um comportamento social e político marginalizado em um comportamento político capaz de influenciar a realidade. Tudo isto só é possível porque o suicídio é pura comunicação e, conseqüentemente, recupera a imagem do homem ativo, dono da própria vida.

 

Obs: Este texto foi extraído de:

SUICÍDIO - TRAMA DA COMUNICAÇÃO

Dissertação de Mestrado, 1992, Psicologia Social, PUC-SP

Autor: Marcimedes Martins da Silva

 

 

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