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Compromisso político-social

           A comunicação vai além dos casos óbvios como o exemplo dado por Dias (op. cit.) de uma jovem de 21 anos que escreveu uma metamensagem na sola de seu calçado esquerdo para que fosse lida logo após seu suicídio por precipitação do Viaduto do Chá no centro da cidade de São Paulo. Enquanto pura comunicação, serve como exemplo o relato de Castro(1987) de que um homem "(...) lastimava as circunstâncias que não lhe permitiam matar-se diante da moradia de dois
inimigos seus e o obrigavam a limitar-se a um deles." (p.  178)

 
           Aceito o suicídio como gesto de comunicação deve-se percebê-lo como a mensagem principal e, assim, os bilhetes são metamensagens e as fotografias são ícones. Enfatizando as representações sociais encontradas nas metamensagens, é possível descobrir que o suicidado reconhece seu gesto como sendo atividade. Esta se constitui em um comportamento social que promove o retorno do indivíduo à sociedade em um novo "status" - suicidado, rompendo a cristalização sufocante da identidade e permitindo que continue   influenciando o mundo dos vivos. Há uma lógica escondida por trás de um gesto ambíguo e esta mesma lógica é ambígua. O indivíduo, mesmo morto fisicamente, vive simbolicamente uma nova identidade – de suicidando passa para suicidado, restabelecendo a comunicação.

 
           Na atualidade, tenta-se cada vez mais negar-se a morte, mas é necessário chamar a atenção para a figura do morto representado nesta pesquisa pelo suicidado, não atribuindo somente a ele a responsabilidade pela sua morte individual, mas buscando demonstrar que há em cada suicídio uma grande parcela de responsabilidade social. A culpa é parte do suicidado,  parte das mediações sociais e é preciso superar a culpa e resgatar pela comunicação o indivíduo potencialmente suicida.

 
          A trama de comunicação social que envolve o suicidado foi esboçada, ressaltando o caráter político do gesto suicida. Permanece aberto, no entanto, o aprofundamento desta trama que através de uma observação assistemática da sociedade revela ter outros ângulos a serem explorados. O CVV-Samaritanos, por exemplo, funciona como um "orelhão" sempre atento para receber as vozes dos suicidas em potencial e a imprensa pouco noticia suicídios porque se tem como certo que
notícias de suicídio levam a mais suicídio, ou seja, há uma "boca fechada" a respeito do assunto.

 
            A negação do assunto revela a ausência de compromisso social. Politicamente, quanto mais alto o cargo, maior deveria ser o interesse pelo tema. Situá-lo no contexto da comunicação e desvelar o trama que o envolve implica em despertar o debate para tentar garantir a viva voz de quem teria que sufocá-la para ser ouvido.

 

Obs: Este texto foi extraído de:

SUICÍDIO - TRAMA DA COMUNICAÇÃO

Dissertação de Mestrado, 1992, Psicologia Social, PUC-SP

Autor: Marcimedes Martins da Silva

 

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