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Representação social e comunicação

           Para aprofundar a abordagem psicossocial, optou-se pelo conceito de representação social. É preciso lembrar que este conceito foi introduzido na Psicologia Social por Moscovici(1978) resgatando o conceito de representação coletiva de Durkheim contido nas obras "O suicídio e "Formas elementares da vida religiosa". Para Durkheim, a vida coletiva é integrada pelos fatos sociais e a consciência coletiva de que esta dotada é, por sua vez, integrada por representações coletivas: efeitos que se sobrepõem aos indivíduos que compõem a coletividade e que refletem a própria coletividade. As representações coletivas diferem das representações individuais, assim como a associação de seres humanos produz um todo que se sobrepõe as partes que o formam.

 

          Moscovici supera o reducionismo sociológico e incorpora mecanismos sócio-cognitivos. Propõe a substituição do adjetivo coletivo (Durkheim) pelo adjetivo social para:

-         descartar a oposição individual versus coletivo;

-         contrapor a homogeneidade implícita nas representações coletivas à diversidade e pluralidade das representações no contexto histórico-social de uma sociedade complexa e aberta; e

-         enfatizar a comunicação que possibilita fazer algo individual tornar-se social.

 
          Ele afirma que a reprodução das propriedades de um determinado objeto pelo ser humano não é o reflexo de uma realidade externa perfeitamente acabada, mas uma verdadeira construção mental do objeto que implica reconstruí-lo dentro de um contexto de valores, noções e regras. A representação social é elaborada pela atividade simbólica do indivíduo que, assim, apreende o seu ambiente. Portanto, a representação social só pode ser compreendida se também for buscada a história individual relacionada à história da sociedade a qual o indivíduo pertence. Ela é o processo e o produto da relação entre a atividade mental e a práxis social. As pessoas agem concretamente no cotidiano, fazendo história, comunicando-se umas com as outras através de representações sociais  que, por sua vez, são redefinidas. Moscovici reconhece que a representação social é um conjunto de conceitos, explicações e afirmações que se originam na vida diária, no curso de comunicações interindividuais. O universo das representações sociais é o universo consensual, sendo que a linguagem desempenha um importante papel, facilitando associações de idéias, reconstruções de regras e valores, onde o desconhecido passa, simbolicamente, a conhecido.


          Os dois processos básicos, segundo Moscovici, da  representação social  são a ancoragem e a objetivação. Ancorar é trazer para categorias e imagens conhecidas o que não está ainda classificado e rotulado. É transformar o que é estranho em algo familiar, ou seja, ancorar o desconhecido em representações já existentes. Assim, o novo objeto da representação ganha sentido; o que é novidade passa a ser parte integrante e enraizada no sistema de pensamento oficial(ciência) ou em outras representações e, por sua vez, passa a fazer parte do sistema de integração entre o indivíduo e o mundo social porque o que é comum ao grupo permite compartilhar comunicação e influenciar a ação.Objetivar é transformar uma abstração em algo quase físico. Objetivação é o processo através do qual se cristaliza uma representação: noções abstratas são transformadas em imagens cujo conteúdo interno após descontextualizar-se forma um núcleo figurativo para, por fim, transformar as imagens em elementos da realidade. Importante também é salientar que para qualificar uma representação como social é preciso definir o agente que a produz e enfatizar que a representação tem como função contribuir exclusivamente para os processos de formação de condutas e de orientação das comunicações sociais.

 
          Jodelet(1985) acrescenta que a representação social é o ponto de intersecção do psicológico e do social. Constitui-se a partir das experiências, dos conhecimentos, informações e modelos de pensamentos transmitidos, cotidianamente, através da tradição, educação e comunicação social. Toda representação define-se por seu conteúdo, o qual tem como elementos conceitos e imagens criados por alguém a respeito de um objeto, de forma  a se relacionar com outras pessoas. A representação social é produto e processo de uma elaboração psicológica e social do real, ou ainda, designa uma forma de pensamento social. Assim, um observador da vida social deve estar atento para perceber as diferentes formas que a representação social assume.

 
          "As representações sociais, na ótica da psicologia social, constituem uma forma de conhecimento prático - o saber do senso comum - que tem dupla função: estabelecer uma ordem que permita aos indivíduos orientarem-se em seu mundo material e social e dominá-lo; e possibilitar a comunicação entre os membros de um determinado grupo." (Spink, 1989, p. 2).

 
          Enquanto Jodelet apresenta as representações sociais como elementos constitutivos de concretização da ideologia, Moscovici pressupõe:

 
 "(...) certo grau de interdependência entre os dois conceitos. Define, assim, tanto as representações quanto a ideologia como gêneros de produções mentais sociais atribuindo, porém, às representações propriedades funcionais específicas - a organização do real, a orientação da conduta e da comunicação - que as tornam irredutíveis a ideologia. Ou seja, as representações refletem a ideologia mas tem sua própria especificidade." (Spink, 1989, p. 9).

 
          As reflexões a respeito de representação social levam a concluir que o ser humano, objeto e sujeito da história, desenvolve-se através de processo de comunicação, onde a representação social, dinamicamente, estrutura e é estruturada. Para analisar as representações que um indivíduo tem do mundo onde vive, ou viveu, é necessário captar a visão que tem de seu mundo, sabendo que tal visão dependerá do lugar ocupado pelo indivíduo em relação aos outros. Esta relação não é apenas objetiva, mas também subjetiva, onde um se confronta com o outro e, ao mesmo tempo, com a imagem que elabora  do outro. Por sua vez, ouvir o indivíduo suicidado significa tentar compreender como seu espaço se constitui nesta relação enquanto realidade subjetiva que se insere no real porque o suicidado permanece socialmente representado no pensamento dos vivos e é reproduzido toda vez que alguém se mata.

 
          Na obra clássica datada de 1897, Durkheim analisa  o suicídio como fato social. Ele (l987) escreve:
 "Dado que a pequena minoria de pessoas que se matam todos os anos não constitui um grupo natural, que não estão em contacto umas com as outras, o número constante dos suicídios só pode ser devido a acção de uma causa comum que domina os indivíduos e que lhes sobrevive." (pp. 311-312)

 
          Além da sociedade ser composta por indivíduos, é composta também por fatos sociais de diferentes maneiras, inclusive como fenômenos abstratos de  consciência coletiva e sua manifestação concreta que são as representações coletivas. A vida social é essencialmente formada por representações. Estas representações coletivas são de uma natureza muito diferente das representações individuais: deve-se admitir que os estados sociais diferem qualitativamente dos estados individuais e, ainda, são exteriores aos indivíduos. A  vida social age sobre o comportamento do indivíduo a partir do exterior. Estruturas e normas criadas por diferentes indivíduos materializam-se em realidades autônomas que passam a independer daqueles que as criaram. Além disso, tornam-se também mais inalteráveis e menos acessíveis aos indivíduos, ainda que nem toda consciência social consiga exteriorizar-se e materializar-se a tal ponto. Durkheim estava preocupado com a manutenção da ordem social. A solidariedade social é o ponto de partida para sua teoria sociológica. Ele salienta que existem as influências exteriores, quer sejam de associações, quer sejam de acontecimentos passageiros, que perturbam o funcionamento da vida coletiva, configurando uma situação anômica, que é a ausência ou desintegração das normas. Ou seja, as crises industriais ou financeiras bem como as crises de prosperidade, por exemplo, têm o mesmo resultado, fazendo aumentar os suicídios porque são perturbações da ordem coletiva. Ele afirma que, para preencher as necessidades morais do indivíduo, é preciso que a sociedade desempenhe o papel moderador entre os limites de cada um. Ela é a única autoridade moral superior ao indivíduo e cuja superioridade este aceita. No entanto, o Estado, a religião e a família passam a encontrar dificuldades para desempenhar o papel moderador, conforme Durkheim(1987) afirma:

 
 "Actualmente, e sobretudo nos nossos grandes Estados modernos, a sociedade está demasiado longe do indivíduo para poder agir sobre ele de uma maneira eficaz e contínua." (p. 376) bem como "(...) a menos que a humanidade volte ao ponto de partida, as religiões nunca mais poderão voltar a exercer  um domínio nem muito vasto nem muito profundo sobre as consciências." (p. 378).

 
          Finalmente, após comentar como a família esta perdendo, dia a dia, seu controle sobre o indivíduo, Durkheim afirma que  "(...) esta dispersão periódica reduz a zero a família como ser coletivo." (p. 380). O suicídio, segundo Durkheim, reflete a frouxidão das normas sociais e, conseqüentemente, a coesão grupal e a solidariedade estão ausentes. Kalina e Kovadloff(1983) afirmam, claramente, que Durkheim "(...) vê no suicídio o sintoma de um  trauma cultural, a expressão de um conflito comunitário proveniente ou resultante de uma dissolução parcial, mas profunda das três forças coercitivas clássicas da civilização ocidental: a família, o Estado e a religião." (p. 60).

 
          Situando-se na fronteira entre o estudo de Durkheim e a psicanálise, este estudo considera o indivíduo vivendo conflitos intra/inter-subjetivos dentro da sociedade. Assim, é preciso pensá-lo enquanto indivíduo que contém as múltiplas determinações da complexa estrutura social - onde se destacam família, Estado e religião. O ser humano vive um constante paradoxo: ao mesmo tempo que é sobrecarregado por uma avalanche de informações e aparenta estar integrado ao todo social, na realidade, está só e sem tempo de elaborar o acúmulo de diferentes valores morais que recebe, bem como sem possibilidade de perceber a si mesmo e aqueles que o rodeiam. O Estado exerce seu controle através de diferentes comunicações nem sempre claras aos indivíduos e que vão desde obrigações - registro de nascimento, atestado de óbito, declaração do imposto de renda, entre outras- até a utilização de propagandas subliminares disfarçadas em campanhas educativas ou notícias. Quanto a religião e a família, elas continuam exercendo controle sobre as consciências, mas, hoje, mediadas pelos meios de comunicação. Assim, a religião pode se apresentar ao indivíduo através da televisão ou do telefone. Por exemplo, todos os anos, o Papa João Paulo II tem aberto a Campanha da Fraternidade da CNBB-Conferência Nacional dos Bispos do Brasil  via televisão e rádio, diretamente do Vaticano e, em São Paulo, é possível ouvir mensagens evangélicas através do telefone.

 
          Entretanto, o ser humano não é um sujeito passivo diante da sociedade e não se deve atribuir ao organismo social toda a responsabilidade pelo suicídio individual. É preciso enxergar o ser humano também como sujeito ativo na sociedade, enfatizando-o enquanto ser comunicativo, criador de símbolos e significados. A comunicação é uma necessidade humana básica e o ser humano utiliza-se dela em todas as situações de sua vida para partilhar com os demais suas experiências, constituindo sua identidade. Isolado, o indivíduo desumaniza-se.  Ora, suicidar (o uso comum é suicidar-se ou se suicidar, mas desprezamos a partícula se porque suicidar = morte de si mesmo) ainda que não faça parte da vida de todas as pessoas, é uma ação que faz parte da vida daqueles que efetivamente se matam. E, lembrando que comunicar-se pode se dar através de formas verbais e não verbais, torna-se possível pensar no suicídio como gesto de comunicação praticado por alguém que se vê tolhido na sua razão comunicativa. Nesta comunicação, porém, é difícil perceber a mensagem enviada e como ela é recebida. Isto porque o intercâmbio suicidado-sociedade, a curto e a longo prazo, se dilui pelo aparente isolamento de cada ato suicida no tempo e no espaço, o que é reforçado pela dissimulação e repressão social.  Porém, é a palavra que comunica o fato para a sociedade que irá juntar os inúmeros gestos suicidas isolados dentro de um só contexto social. O suicidado, através de seu gesto, permanece  incomodando o mundo "dos outros", uma vez que estes ficarão procurando significado para seu último gesto. O processo de comunicação suicidado-sociedade, portanto, continua dentro de um campo interacional. Por isto, é preciso resgatar o ato suicida: o gesto solitário, uma vez efetivado, perde sua característica  de isolamento porque desencadeia um processo de comunicação contra o qual vão se consolidando diferentes mecanismos de controle social,  utilizando diversas formas de comunicação dispersas por instâncias de poderes que não descartam sequer um limitado controle familiar.

 
          Neste ponto, cabe retomar a literatura a respeito de suicídio, especificamente a respeito de bilhetes suicidas, se detendo, em primeiro lugar, no estudo desenvolvido em França sob coordenação de Foucault (l977) a respeito do memorial escrito por Pierre Rivière, o qual matou a mãe, a irmã e o irmão no século XIX. Ele foi preso, condenado a morte, indultado para ficar em prisão perpétua e, vendo recusado seu pedido para receber a pena de morte, enforcou-se na cadeia.

 
          Peter e Favret, dois estudiosos do caso Pierre, afirmam  que para ele ser ouvido foi preciso que matasse e a recusa da justiça ao pedido dele para receber a pena de morte era também a recusa em ouvi-lo. Foucault acrescenta  que relatos como estes podem servir de intermediários  entre o quotidiano e o histórico, produzindo história  que, por sua vez, marca datas, lugares e pessoas. É uma história abaixo do poder e que vem chocar-se com a lei. A expressão "história abaixo do poder" designa todos os relatos de acontecimentos ausentes da história oficial que permitem tornar conhecidos aspectos da sociedade que se encontravam encobertos.

 
          Riot, outro estudioso do caso Pierre, diz que os médicos e os magistrados fazem duas tentativas de substituir o memorial por versões "aceitáveis" embora contraditórias, da vida de Rivière.

 
          E foi assim, recoberto por todo o peso dos textos oficiais, que o texto de Rivière ficou desaparecido nos arquivos por quase cento e cinqüenta anos.

 
          A análise do memorial de Pierre Rivière é importante porque caracteriza a intenção deste estudo em ser parte dos que procuram dar voz aos suicidados, diferenciando-se dos trabalhos apresentados a seguir, os quais são importantes porque oferecem contribuições metodológicas  à análise dos bilhetes suicidas.

 
          O primeiro autor a abordar escritos de suicidados parece que foi Brierre de Boismont em l856 em França, segundo Durkheim(1987), seguido de Wolf  em l93l nos Estados Unidos da América e de Morgenthaler em l945 na Suíça, segundo Frederick(1969). Brierre de Boismont analisa  os sentimentos expressos pelos suicidas em seus escritos, dividindo-os em bons, maus e sentimentos mistos. Wolf resume  os bilhetes, distribuindo-os por temas tais como pobreza, amor não retribuído, doença, etc. Morgenthaler enfatiza  os estados emocionais dos escritores de bilhetes.

 
          A tentativa de introduzir uma técnica mais precisa de análise dos bilhetes suicidas, porém, começa com Shneidman e Farberow em l956, investigando as diferenças de conteúdos entre bilhetes legítimos, reconhecidos como sendo de autoria do suicidado pelas autoridades legais, e e simulados. Os bilhetes legítimos eram os escritos, evidentemente, pelos suicidados, enquanto que os simulados eram os escritos por pessoas colocadas na situação "simulada" de que se matariam porém, antes, deveriam escrever um bilhete. A partir destes autores, para melhor compreender como se desenvolveram os estudos a respeito dos bilhetes suicidas, pode-se sistematizá-los em quatro grupos: estudos de bilhetes legítimos de suicidados comparados com simulados; estudos de bilhetes legítimos de suicidados comparados com bilhetes legítimos de tentadores e ameaçadores de suicídio; estudos somente de bilhetes legítimos de suicidados e estudos de revisão das pesquisas a respeito dos bilhetes suicidas. As diferenças entre os estudos são encontradas, principalmente, nos métodos utilizados pelos diferentes autores. Assim, Shneidman e Farberow (1956 e 1957) utilizam o Quociente Desconforto-Alívio elaborado por Mowrer; Tuckman, Kleiner e Lavell (1959), Darbonne (1969a,b), Lester (1971a), Cohen e Fiedler (1974) e Chynoweth  (l977) se preocupam   em buscar os conteúdos emocionais; Osgood e Walker (l959),  Gottschalk   e   Gleser   (l960),  Spiegel     e  Neuringer (l963),      Tuckman  e Ziegler (l968) e Lester e Reeve (l982) pesquisam   os conteúdos emocionais juntamente com a análise gramatical ou de estilo; Jacobs (l967) faz um estudo fenomenológico, classificando os bilhetes pelas intenções  dos suicidados; Tuckman e Ziegler (l966) utilizam   a análise de padrões de linguagem das crianças segundo Piaget; Frederick (l968) utiliza a  análise gráfica dos bilhetes; Hood (l970) e Beck, Morris e Lester (l974) procuram   descobrir o grau de intenção de se matar expressos  nos bilhetes; Lester (l97lb) verifica a necessidade de afiliação(reunião com os mortos) do suicidado; Edland e Duncan (l973) buscam o significado da morte expresso pelo suicidado; Henken (l976) e Edelman e Renshaw (l982) utilizam   computadores para analisar os bilhetes na busca de estilo próprio do suicidado em escrever; Lester e Hummel (l980) procuram   nos bilhetes os desejos de matar, morrer e ser morto do suicidado detectados por Menninger; Shneidman (l98l) propõe que o bilhete seja estudado junto com a história do sujeito; Leenaars e Balance (l98l, l983 e 1984) fazem   a análise dos bilhetes segundo sentenças-protocolos extraídas das teorias de Freud, Bismark e Kelly; e, finalmente, Frederick (l969), Shneidman (l973 e l979) revêem  os estudos a respeito dos bilhetes suicidas.

 
          Frederick conclui sua revisão com algumas recomendações, entre as quais, que devem ser feitos estudos comparando bilhetes suicidas de grupos culturais diferentes, estudos comparando suicidados que deixaram bilhetes com suicidados que não deixaram e, principalmente, dado a dificuldade  em se obter bilhetes suicidas para estudo, sugere que haja maior intercâmbio entre os pesquisadores do mundo inteiro porque os estudos dos bilhetes suicidas abrem as portas para investigações dentro da teoria da personalidade, psicodinâmica, teoria da aprendizagem, etc. Segundo Frederick, cada pesquisa feita com bilhetes suicidas é uma contribuição histórica porque muitos dados de bilhetes suicidas se perdem devido à dissimulação das autoridades e amigos que estão presos a velhos tabus em relação ao suicídio, requerendo que se realizem programas educativos visando acabar com os tabus e ajudar as pessoas a superarem seus sentimentos de culpa. Só assim será possível encontrar respostas que até o presente permanecem desconhecidas.

 
          Shneidman, em sua primeira revisão, termina por propor (epistemologicamente) cinco tipos de bilhetes suicidas: l. Tético = dogmático, contendo teses; 2. Antitético = refutando ou subentendendo teses; 3. Sintético = combinando teses e antíteses; 4. Atético = contendo ponto de vista, instruções; e 5. Ambitético = contendo um  ponto de vista e seu contrário.
          Em l979, Shneidman revê novamente os estudos a respeito de bilhetes suicidas desde l856 para concluir que os bilhetes suicidas podem ser imensamente explicativos nos casos individuais quando colocados dentro do contexto de um estudo de caso detalhado ou anamnese.

 
          Ressalte-se, portanto, que todos os estudos apresentados até aqui não abordam   o assunto sob a ótica psicossocial. Via de regra, eles se restringem a abordagens psicológicas ou psicanalíticas ou sociológicas, ora enfatizando o indivíduo, ora o social. Além disso, em geral, os autores centralizam a atenção no conteúdo, esquecendo que o fato está inserido dentro de um contexto social mais amplo de relações, o qual este estudo pretende questionar.

 
             Um trabalho que procura descrever mecanismos específicos da dinâmica sócio-psicológica (ou psicossocial) do suicida expressos em "mensagens de Adeus" é o de Dias publicado em 1991. As mensagens de Adeus  é a expressão utilizada por dias para o material deixado pelos suicidas em    forma de cartas, bilhetes e fitas de áudio. Dias analisa a visão da vida e da morte pelo suicida, as dinâmicas específicas do mesmo  relacionadas ao narcisismo e considera os bilhetes como "mensagens de Adeus", portanto de indivíduos que se despediram para sempre. No entanto, o próprio ato suicida é um signo de comunicação por excelência que os mantêm vivos na sociedade após a morte.
          Assim, partindo-se do pressuposto que interessa aos suicidados serem ouvidos após a morte, os conteúdos dos bilhetes são analisados tentando resgatar o que eles têm para dizer, para quem escreveram e com quais sentimentos e intenções. Afirmar que o suicidado quer ser ouvido, implica reconhecer a comunicação como processo fundamental do desenvolvimento do ser humano. Ele pensa, expressa seu pensamento em palavras e, quando quer ser ouvido além do espaço e do tempo, registra suas palavras através da escrita.

 

Obs: Este texto foi extraído de:

SUICÍDIO - TRAMA DA COMUNICAÇÃO

Dissertação de Mestrado, 1992, Psicologia Social, PUC-SP

Autor: Marcimedes Martins da Silva

 

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