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Rito de passagem

               Vovelle (1987), um dos principais historiadores da atualidade, afirma que as pessoas do
povo estão reduzidas ao silêncio. Para se exprimirem é preciso valorizar, além das fontes escritas, o
que se faz (os gestos e o que expressam); o que se vê (iconografia e arqueologia) e o que se diz
(tradição oral). O antropólogo social Leach(1978) enfatiza que na compreensão da comunicação
devem ser consideradas:

 
"(...) todas as várias dimensões não verbais da cultura como estilos de vestuário, cenários de um
vilarejo, arquitetura, móveis, comida, cozinha, música, gestos físicos, postura, etc. [que]  estão
organizadas em conjuntos padronizados a fim de incorporarem a informação codificada de uma
maneira análoga aos sons, palavras e frases de uma língua natural."(pp. l6-l7).

 
          Para Leach, a comunicação humana é alcançada através de ações expressivas que operam
como sinais, signos e símbolos sendo que, muitas vezes, interessa ao estudioso interpretar os
resultados de antigas ações expressivas de outras pessoas ou povos, variando de uma carta a um
monumento ou costume. Ele define os termos - sinal, signo e símbolo - da seguinte maneira:

 
Sinal: a entidade A  "que porta a mensagem" causa a mensagem B por resposta encadeada;

Símbolo:  a entidade A significa a entidade B por associação arbitrária; e

Signo: a entidade A significa a entidade B como uma  parte para o todo.

Por exemplo, coroa é signo de realeza.

 

             Ele afirma também que:

 
 " (...) 1) os signos não ocorrem isolados; um signo é sempre membro de um conjunto de sinais
contrastados que funciona dentro de um contexto cultural específico;
2)  um signo só transmite informação se combinado com outros signos e símbolos do mesmo
contexto." (l978 : 20).

 
          Explicando melhor, um signo é uma ligação simbólica estabelecida por convenção e uso
habitual entre um objeto do mundo externo e uma imagem mental, a imagem-sentido. Quanto aos
símbolos (tanto verbais como não verbais) interessa observar que, quando são utilizados para
distinguir uma classe de coisas ou ações de uma outra, estão sendo criadas fronteiras artificiais em
um campo "naturalmente" contínuo. Tais fronteiras, em princípio, não deveriam ter dimensões, mas
suas marcas ocupam espaços e, assim, tornam-se implicitamente ambíguas e fontes de conflito e
ansiedade, quer se trate de dividir o tempo ou o espaço. Esta reflexão de Leach a respeito de
fronteira como zona limítrofe ambígua, área "sagrada" e sujeita a tabu, é importante no contexto
deste trabalho para entender o suicídio como ritual de transição porque: "O cruzamento de fronteiras e limiares é sempre cercado de rituais, como também a transição de um status social para outro."(1978, p. 46).

 
          (Estas) "(...) práticas rituais, sendo dinâmicas, devem ser vistas como sinais que automaticamente desencadeiam uma mudança do estado (metafísico) do mundo.

 
          Em tais práticas, o movimento dos indivíduos de uma localidade física para outra e a
seqüência na qual tais movimentos são realizados são, eles próprios, parte da mensagem; eles são
representações diretas das "mudanças na posição metafísica"".(1978, p. 63).

 
          Os ritos de transição tem uma estrutura semelhante composta de três fases, observáveis no
esquema geral reproduzido a seguir (1978, p. 97) :

 

 
                                condição anormal
                                 iniciado sem status
                                 fora da sociedade
                                 fora do tempo
                             (rite de marge: estado marginal)
  condição   __ _____________________________ __condição
  "normal"    __                                                            __"normal"
  inicial        __                                                             __ final
---------->   rito                                                            rito------------->--
iniciado        de                                                              de                 iniciado
no status     separação                                                  agregação       no status
A, do                                                                                                 B, do
tempo T1                                                                                           tempo T2

Rito de separação: o iniciado que está se submetendo a uma mudança de status deve ser separado
de seu papel inicial, retirando-se de sua existência normal, tornando-se temporariamente uma
pessoa anormal que existe em um tempo anormal.

Rito de marginalidade: intervalo de ausência de marcação de tempo social que, se aferido por um
relógio, pode durar poucos momentos ou se estender durante meses. O iniciado é mantido
fisicamente à parte das pessoas comuns e pode se sujeitar a todos os tipos de permissões e
proibições especiais, geralmente, com relação a comida, roupas e movimento. Está "contaminado
pela santidade" e é também perigoso e, assim, "sujo". Para voltar a vida normal,  precisa ser lavado,
descontaminado.

 
Rito de agregação: o iniciado é trazido de volta para a sociedade normal e agregado ao seu novo
papel.

          Estes ritos de transição, analisados enquanto processos de comunicação, implicam em
observar os suicidados, revelando todos os significados dos seus supostos silêncios.

           Umberto Eco(1977), filósofo e semioticista, procura elaborar uma teoria unificada do signo,
definindo operacionalmente o sinal, o signo, o interpretante, e outros termos; e dando diretrizes para introdução à pesquisa semiológica. Segundo Eco: l) não se deve negar a imobilização da realidade
em modelos porque é a única forma de exercer um certo domínio sobre ela, mas, de outro lado, é
preciso estudar  as diferenças individuais que impelem a realidade ,  modificando-a  e,
conseqüentemente,  alterando  também  sua  compreensão; 2) uma teoria unificada do signo implica
em "(...) definições operacionais, no sentido de que poderiam dar lugar a construção de um
autômato capaz de comportamento sígnico." (p. l95). Ele afirma:

"Em qualquer processo de comunicação elementar entre duas máquinas, a partir de uma fonte de informações um emissor escolhe sinais que um aparelho Transmissor faz passar através de um Canal, de modo que um aparelho Receptor os capte e responda segundo modalidades da relação estímulo-resposta. (...) Tem-se um signo quando por convenção preliminar qualquer sinal é instituído por um Código como significante de um significado. Tem-se processo de comunicação quando um
emissor intencionalmente transmite sinais postos em Código mediante um Transmissor que os faz passar através de um Canal; os sinais saídos do Canal são captados por um aparelho Receptor que os transforma em mensagem perceptível para um Destinatário, o qual, com base no Código, associa a mensagem como forma significante, um significado ou conteúdo de mensagem. Quando o Emissor não emite intencionalmente e aparece como Fonte natural, tem-se um processo de significação - conquanto sejam observados os restantes requisitos. 

                Um signo é a correlação de uma forma significante com uma (ou com uma hierarquia de) unidade que definimos como significado. Nesse sentido, o signo é sempre semioticamente autônomo em relação aos objetos a que pode ser referido." (pp. l96-l97).

 
          Eco não diferencia diretamente na teoria unificada do signo o que é ícone, mas cita Peirce,
para o qual ícone - um signo - pode ser tanto um desenho, um diagrama, uma metáfora, quanto uma imagem mental. Eco escreve:

 "Peirce chega a dizer que um ícone só existe na consciência, mesmo se por comodidade se estende
o nome de ícone a objetos externos que produzem um ícone na consciência. Por isso, chamar ícone
a uma fotografia é pura metáfora: ícone é a imagem mental que aquela fotografia suscita..." (1977, p. l63).

Obs: Este texto foi extraído de:

SUICÍDIO - TRAMA DA COMUNICAÇÃO

Dissertação de Mestrado, 1992, Psicologia Social, PUC-SP

Autor: Marcimedes Martins da Silva

 

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