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As fotos e os bilhetes: considerações gerais

             Estamos analisando 16 bilhetes deixados pelos suicidados e 6 fotografias tiradas após o suicídio. Portanto, os suicidados pesquisados totalizam 22 sujeitos porque as pessoas das fotos não são as mesmas que deixaram os bilhetes. Todo material foi  obtido durante doze meses, aleatoriamente, com a ajuda   de um perito criminal, o qual auxiliou  com diversos relatos a respeito das fotografias, não caracterizando propriamente uma entrevista mas servindo de apoio, com suas observações, para análise do material. Para tanto, cabe reforçar o que foi dito quando citou-se Vovelle e Leach, com as palavras de Simson(s/d) que, fazendo uma reflexão a respeito do uso da fotografia na pesquisa sociológica, lembra :
"(...) a imagem fotográfica, em si, não permite estabelecer relações. Ela é um momento congelado no tempo. É o conhecimento que o pesquisador tem a respeito do assunto retratado que lhe permite enxergar outras informações nesse registro visual." ( p. 3).

 
Além disso, lembra que:
 "(...) a reconstrução histórico-sociológica de um determinado fenômeno ou processo é aquele que utiliza a fotografia conjuntamente com outros tipos de dados empíricos." (p. 5).

 
          Os dados estatísticos do IBGE-Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística não estão sendo utilizados porque estes, se por um lado oferecem uma ordem de grandeza aceitável, de outro lado são imprecisos. Esta imprecisão resulta de inúmeros fatores, destacando-se entre eles: os fatores religiosos - as fracas porcentagens dos suicídios em países latinos são influenciadas pela predominância do catolicismo; os fatores políticos - os dados estatísticos tendem a ser manipulados para defender interesses econômicos e/ou políticos; e, finalmente, fatores morais - autoridades médicas tendem a atribuir outra causa a morte para defender interesses de familiares e/ou autoridades.

 
           Os bilhetes foram escritos por 9 homens com as idades de l5, 20, 22, 27, 28, 33, 35, 53 e 56 anos e por 7 mulheres com as idades de 20, 22, 27, 30, 40, 60 e 64 anos, ou seja, trata-se de analisar bilhetes deixados por uma população mais jovem do que idosa e quase com o mesmo número de homens e mulheres, sendo 11 suicidados de cor branca, 5 pardos e 3 descendentes de orientais, todos atendidos pela polícia na Grande São Paulo, excluindo-se a região do ABCD.

 
          Entre os homens, 4 suicidaram por ingestão de veneno, 3 com tiro, um por precipitação em queda livre e um se utilizou de dois meios: facada no peito e, em seguida, enforcamento.
          Entre as mulheres, 4 suicidaram com tiro, uma por precipitação em queda livre, uma por enforcamento e uma se utilizou de dois meios: ingestão de veneno e gás liquefeito de petróleo.

 
          Todos os bilhetes estão escritos em português, inclusive o de uma pessoa estrangeira; há predominância de manuscritos com canetas esferográficas azuis, registrando-se somente um caso em datilografia e um com tinta guache vermelha escrito na parede. Entre os manuscritos com tintas esferográficas azuis registra-se um na contracapa do livro "Sentinelas da Alma" da autoria do médium Francisco Cândido Xavier.

 
          As fotografias mostram 4 homens e 2 mulheres. Dois aparentam ser jovens; um homem aparenta mais de 50 anos e outro apresenta o corpo em adiantado estado de decomposição, dificultando assim a determinação de sua idade. Uma mulher deve ter cerca de 60 anos e a outra cerca de noventa anos.

 
          Entre os homens, dois suicidaram com tiro de revólver, um por enforcamento e um se utilizou de dois meios: fogo e tiro de revólver.

 
          Entre as mulheres, uma suicidou com dois tiros de revólver e uma com uma facada.

 
          Antes de iniciar a interpretação dos bilhetes e das fotos, cabe lembrar que os estudos a respeito dos bilhetes suicidas não reproduzem integralmente seus conteúdos ou, quando muito, trazem-nos em um anexo ou em partes no texto principal. Aqui, porém, lembrando Foucault, para quem este material é parte de uma história abaixo do poder e que vem chocar-se com a lei, os conteúdos dos bilhetes não são apenas parte deste estudo e sim o que há de principal porque se constituem em testemunhos resgatados para a história, uma vez que se encontravam encobertos por inúmeros outros documentos nos arquivos oficiais. Além do que, a reprodução dos bilhetes na íntegra possibilita ao leitor viver, antes de iniciada a análise, a reflexão a respeito de cada texto suicida para, depois, ter condições de ir concordando ou discordando das interpretações dadas e, até mesmo, fazer novas descobertas. Afinal, assim como cada suicidado escreveu um discurso que lhe é próprio e exclusivo porque ninguém havia escrito e nem escreverá exatamente igual tais conjuntos  de palavras, também as interpretações dos bilhetes divergem por causa das influências sócio-históricas que fazem o ser humano refletir, carregado de emoções, e o faz agir ou reagir, passivo ou ativo, levado por uma ideologia. Este comentário vale também para as fotografias, feita a correção de que cada uma foi exclusivamente pensada pelo suicidado e materializada por outra pessoa, o que provoca novas imagens mentais em quem as vê, sendo que as informações do perito também são produtos das imagens nele suscitadas.

 

Obs: Este texto foi extraído de:

SUICÍDIO - TRAMA DA COMUNICAÇÃO

Dissertação de Mestrado, 1992, Psicologia Social, PUC-SP

Autor: Marcimedes Martins da Silva

 

Volta ao início da página              Descrição de fotos de suicidados


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