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Os ícones e as metamensagens suicidas

          O indivíduo pensa em diferentes maneiras de se matar a partir de suas experiências sociais. Estas experiências interpessoais e interpsicológicas passam, depois, a serem intrapsicológicas de maneira que toda perturbação que se dá no plano da comunicação pode produzir grandes problemas, conforme explicou Mário Golder na conferência "A teoria da atividade como fundamento científico da Psicologia Social" proferida na PUC-SP, em 05 de junho de 1991. Isto leva a situar o fenômeno suicídio como um processo de comunicação. Manhães (1991) escreve:
"Uma coisa é certa. O grande suicida, o que realmente quer por fim a sua vida, sempre o faz, no silêncio ou no alarde, como o grande humorista Péricles que se matou no último dia do ano."(p. 29)

 
          Péricles se trancou no seu apartamento e abriu o gás. Dias (1991) complementa:

 
 "(...)Péricles, como muitos, precisou morrer para comunicar sua solidão. (...) É nítido, nas mensagens de Adeus, como com a morte do indivíduo sua intimidade se revela aparente, nua, em comunicação. O sujeito do lado dos mortos entra em contato com as outras pessoas num diálogo emocionado."(p. 130)

 
          Assim, o suicídio de Péricles é mais um que confirma o suicídio como gesto de comunicação e confirma também as palavras de Pinguet (l987): "Morrer de acidente ou de doença não e senão morrer - mas matar-se é fazer do silêncio mesmo da morte o eco do labirinto." (p. 45) É partindo desta premissa, do suicídio como processo de comunicação, que se pode observá-lo a partir de um caso genérico: o suicidado deixou ou não um bilhete.

 
          O suicidado é, ao mesmo tempo, a fonte que emite um sinal em código e o emissor da comunicação. O ato de suicidar é a mensagem. O transmissor desta mensagem é qualquer outra pessoa que utilize canais (conversa, jornal, televisão, rádio, etc) para comunicar o ato, ou seja, a mensagem.

 
          A sociedade é receptora da comunicação e a fonte que realimenta o processo.

 
          O que possibilita que a mensagem do suicidado seja conhecida socialmente é o signo suicídio que, transmitido pelos canais diversos (pessoas, documentos, fotografias, noticiários, etc), vai ressocializando o suicidado.

 
          O suicídio é um signo. Segundo Umberto Eco (1977) : "Um signo é a correlação de uma forma significante com uma (ou com uma hierarquia de) unidade que definimos como significado." (p. 197)

 
          Ou seja, o que está possibilitando este diálogo entre autor e leitor é o uso do signo suicídio dentro não só de um processo de comunicação, mas também dentro de um processo de significação. Entretanto, a comunicação do suicídio não foi iniciada pelo autor e sim pelos próprio suicidados. Já o significado é polêmico porque pode haver divergência entre o significado que o suicidado quis dar ao seu ato e o significado atribuído pelos outros. Mas, se em lugar de entender o ato pelo seu fim, a morte, iniciar a sua compreensão pelo início,  o nascimento, quem sabe fica mais fácil esclarecê-lo.

 
           A comunicação está presente no ser humano antes do nascimento porque são os códigos genéticos que comunicam as futuras características físicas da pessoa, ou seja, vida é comunicação. Ninguém deixa de se comunicar enquanto vive. O indivíduo é um ser de relações e relação implica em comunicação. Sem ela o ser não se humaniza.

 
          A pessoa antes de suicidar procura ficar só.  Esta sua ausência de relações está comunicando aos outros alguma coisa, enquanto está vivenciando mentalmente seu suicídio. Depois de ser uma imagem mental o signo suicídio é transmitido a sociedade através de uma mensagem (conjunto de ações expressivas): o ato de suicidar pertence, ainda, a vida. É um comportamento social. Para esclarecer melhor, compensa lembrar Leach (l978) : "Um signo... só adquire sentido quando diferenciado de outro... signo contrário."(p. 59) Assim, o contrário do signo suicídio é o signo pena de morte porque ambos levam as pessoas a vivenciar a morte na mente antes do acontecimento biológico, porém, o suicidado escolhe o meio, a hora, o local, a roupa, etc; enquanto que ao condenado a morte é imposto tudo, restando-lhe, quando muito, uma humilhante situação de último desejo ou de clemência.

 
          Cada sucessiva imagem mental do gesto suicida é um ícone.  Diferentes ícones são elaborados e se sucedem no imaginário suicida a partir da realidade social sendo que um ou mais destes ícones se concretizarão através de fotografias tiradas no local do suicídio. Estas são ícones - reproduções de imagens mentais - vivenciadas pelo suicidado quando, sozinho, comunicava a si mesmo (em segundos, horas, dias ou meses) que iria se matar por determinado meio, em certo local, com roupa escolhida ou não, etc; e, após ter escrito ou não um bilhete, visto esta ou aquela pessoa, etc. Enfim, o signo suicídio foi escolhido entre tantos outros signos para comunicar ao mundo alguma coisa. O que o suicidado quis comunicar poderá, então, ser procurado no conjunto de suas ações expressivas - mensagens- que revelam representações sociais, constituindo o ato de suicidar a principal mensagem; as fotografias são os ícones e os bilhetes são as metamensagens porque são mensagens a respeito da mensagem principal.

 

Obs: Este texto foi extraído de:

SUICÍDIO - TRAMA DA COMUNICAÇÃO

Dissertação de Mestrado, 1992, Psicologia Social, PUC-SP

Autor: Marcimedes Martins da Silva

 

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