DOWNLOAD

 

O suicídio : gesto de comunicação social               Sentimentos

          Nos bilhetes não são encontradas as palavras suicídio, cometer suicídio ou suicidar.   Para que se torne mais fácil perceber se há alguma substituição destas palavras por outras nos bilhetes, cabe refletir primeiro a respeito do termo suicídio.

 
          Até o século XVIII, a expressão utilizada era morte voluntária, quando foi, então, substituída pela palavra suicídio. Em português são empregados também os sinônimos: autofonia, autoquíria, propicídio e autocídio. As origens destas palavras são as seguintes:

 
SUICÍDIO - do latim "sui" = a si mesmo e "caedere" = matara, ou "cadere" = morrer, ser imolado;

 
AUTOFONIA - do grego "auto" = a si mesmo, próprio e "fonos" = assassínio;

 
AUTOQUÍRIA - do grego "auto" = a si mesmo, próprio e "Kheir, Kheiros" = mão, ou seja, agir contra si mesmo pelas próprias mãos;

 
PROPICÍDIO - do latim "propiu" = privativo e "caedo" = matar, ou seja, provocar privativamente a morte a si mesmo; e

 
AUTOCÍDIO - do latim "autos" = próprio e "caedo" = matar.

 
          Ainda são empregados em português outros termos, tais como: auto-assassinato, auto-homicídio, morte voluntária, homicídio de si mesmo e morte de si mesmo.

 
           Analisando os bilhetes, constata-se que seus escritores referem-se ao suicídio como iniciativa, ato, isso, atitude e decisão:
"Se tomei esta iniciativa..." (F, 22)

"...pelo meu ato... (...) ...decisão minha..." (F, 64)

"Faço isso... Faço isso..."(M, 20)

"Essa atitude..." (M, 22)

"... ter tomado esta decisão..." (M, 28)

"Sei que estou tendo uma atitude..." (M, 35).

 
          Os termos iniciativa  e ato indicam  ação.  Iniciativa é ação daquele que é o primeiro a propor uma coisa  e ato é ação que se fez, feita ou que se está fazendo.

 
          O pronome  isso indica ambigüidade e indefinição, deixando ao outro a interpretação do ato. Porém, este pronome vem acompanhado do verbo fazer o que novamente relaciona suicídio a ação.

 
          Atitude indica reação pois é a maneira de ser - postura - em relação a determinada(s) pessoa(s), objeto(s), situações, etc.

 
          Em resumo, todas as palavras usadas confluem a um mesmo significado: ação (ato), ação (reação), ação (decisão) e ação (iniciativa) no sentido do indivíduo assumir o poder sobre si mesmo e sobre os outros. Está presente a ação do indivíduo - iniciativa e decisão, mas também uma ação (ato) em relação aos outros - reação. A ação é a manifestação de uma força, de uma energia exercida por um agente - o suicidado, sobre outro agente - alguém ou toda a sociedade. É como se o suicidado estivesse afirmando que seu cadáver, seu corpo está atuando sobre os outros, influenciando o social. Mas  esta ação, apesar de ser iniciativa do indivíduo é determinada socialmente, produto do cruzamento entre subjetividade e objetividade, tanto quanto qualquer outro comportamento humano. O suicídio é a atividade de quem vive um angustiante conflito e de quem decide  este conflito, ainda que outra atividade - opção pela vida -   pudesse resolvê-lo também. O suicídio como:
"(...) toda atividade perceptiva encontra o objeto ali onde este realmente existe, ou seja, no mundo exterior, no espaço e no tempo objetivos." (Leontiev, 1978, p. 49)

     pois

 
" (...) a imagem subjetiva do mundo exterior é produto da atividade do sujeito neste mundo. (...) a atividade não e uma reação nem um conjunto de reações, se não um sistema que tem estrutura, suas transições e transformações internas, seu desenvolvimento."(p.  67)

 
          Matar-se é uma atividade individual inserida no conjunto de práticas humanas como sendo a única saída para determinadas situações, sendo tal raciocínio derivado de uma cultura atuante sobre o indivíduo em forma de significados  transmitidos por símbolos e signos, ora subordinando ora transformando a atividade do sujeito.

 
           No suicídio, a mediatização da cultura está presente e faz com que cada sujeito se mate de forma diferente, alterando também a conduta dos que estão ao seu lado. Está presente neste dinâmico processo de comunicação as representações sociais de cada um a respeito da morte, da vida, do próprio suicídio e de muitas outras coisas. Neste sentido, Manhães (1991, p. 36), em um estudo na área de psicologia clínica, lembra que é importante saber dos antecedentes suicidas da família e do próprio cliente.

 
           Nesta perspectiva de análise, tem-se que o suicídio  coloca a sociedade diante de um fato que se quer negar: o morto vive - isto não tem nada de sobrenatural - e passa a agir com mais força através de imagens mentais. Se, por um lado, a ação do suicidado em relação a sociedade, inegavelmente, tem como ponto de partida o seu gesto suicida, de outro lado, para que surja a imagem mental é preciso a ocorrência do gesto aliada a um processo social de recepção, caracterizando   um processo de comunicação  onde as representações sociais permitem ao suicidado criar e alterar a realidade.

 
          A ausência da palavra suicídio nas metamensagens; a constância das palavras morrer (três bilhetes), morte (três bilhetes) e morrendo (um bilhete); o fato de nas fotos aparecerem pessoas mortas (que sempre leva a perguntas - como? por que? do que?); e a raridade com que pessoas suicidam em frente a outras; levam a pensar que quem está potencialmente querendo suicidar está, sobretudo, enamorado da idéia de morte, que é mais "visível", mais "palpável" e não da idéia de suicídio. O indivíduo é seduzido pela morte que acabará com

"... esta dor tão grande..." (F, 20); que o fará renascer

"... no vento que passa a murmurar, nas folhas que farfalham, no solo que abriga e alimenta milhares de seres vivos, na água que corre para o mar nas chuvas que regam os campos, no orvalho que cintila ao luar, nas grandes árvores que abrigam ninhos de passarinhos e que vergam a passagem dos ventos fortes, nos pequenos  arbustos que escondem a caça do caçador... (F, 27);

que trará
"... finalmente descanso." (M, 20) e que fará até mesmo com que escreva

"Eu estou feliz, não chorem. (...)

 Estou contente." (M, 22)

 
          A morte, sem dúvida, é mais visível no cadáver do que o suicídio, identificando-se morto e morte, mas precisando se fazer um exame mais detalhado do corpo para registrar a ocorrência como suicídio. Além disso, pensar, primeiro, em morte é ocupar a mente com o objetivo final do suicídio, com a imagem estática, aquela que será "vista" pela sociedade. Só a partir disto tem-se a representação do suicídio que seduz e que leva ao casamento com a morte.

 
          A morte não é a mesma para todos, mas pode se instalar dentro de cada um, como eles mesmo reconhecem:
"... não encontrei mais nenhuma existência para mim." (F, 22)

"Prefiro morrer do que viver com a morte dentro de mim." (F, 27)

 "... mas estou morrendo aos poucos..." (F, 40)

"... só me passa pela cabeça esta idéia de morte fixa..." (M, 35)

 
          A representação social de suicídio é, pois, ancorada na representação de morte. Ressalte-se, entretanto, que as pessoas têm diferentes representações sociais da morte e, conseqüentemente, diferentes representações sociais do suicídio dependendo da religião, família e país. No Japão, tais diferenças ficaram tão objetivadas que criaram-se diferentes palavras para designar os suicídios como, por exemplo:

 
"funshi" = suicídio por intenção agressiva,

"jibaku" = suicídio por auto-explosão ao destruir o inimigo,

"junshi" = suicídio do escravo por ocasião da morte do seu senhor,

"seppuku" = suicídio por incisão do abdome, harakiri e

"shinju" = suicídio por paixão amorosa.

 
          Lá se atribui muita dignidade ao gesto suicida, estando a representação social da morte amparada na crença de que o espírito do morto terá mais força para atuar na sociedade do que a pessoa permanecendo viva em dada situação cuja saída honrosa era o suicídio. Diferencia-se daqui onde junto com o pensamento de se matar, ganha força a idéia de que já se está morto e, aparentemente, se dirigindo a outras dimensões:

"... preferi morrer." (F, 20)

"Vou morrer..." (F, 22)

"Prefiro morrer..." (F, 27)

"... decisão minha para meu descanso eterno..." (F, 64)

"... finalmente descanso." (M, 20)

"... caminharei paralelamente a vida..." (M, 27)

"... tento passar para um outro plano..." (M, 28).

          No entanto, uma vez analisadas, tais afirmativas demonstram contradição entre movimento(transformação) e não movimento(ato final). Tanto morrer quanto passar podem significar acabar, mas passar e caminhar podem também significar dirigir-se, encaminhar-se. Trata-se de "passar para um outro plano", ou seja, dirigir-se para um novo projeto tanto quanto "caminhar paralelamente", ou seja, se situar em algum lugar onde se possa progredir, viver, descansar, repousar eternamente ou simplesmente dar uma pausa aos sofrimentos.

 
           Cruzando sexo e idade, tem-se  que as mulheres de 20, 22 e 27 dizem que morrerão. A de 64 anos escreve que irá para um repouso que durará  sempre. O homem de 20 anos descansará. O de 27 nos afirma que estará progredindo (em outro lugar) como progrediria nesta vida e o de 28 anos escreve que é sua tentativa de passar para outro plano.

 
           O   suicídio é uma representação ancorada em diferentes representações de morte e, também, representações de vida : descanso, transformação, ausência de sofrimentos, vida paralela, etc, demonstrando que é um fenômeno psicossocial - intra e interpsíquico. É intrapsíquico uma vez que o sujeito vive um conflito emocional consigo mesmo. É interpsíquico porque neste conflito as emoções e os pensamentos são elaborados nas relações sociais.  A  representação social,  segundo Jodelet(1985),  ponto de intersecção do psicológico e do social, explica a atividade do suicidado em criar simbolicamente sua própria destruição a partir das suas ancoragens e do processo de objetivação que vive. Portanto, falar de suicídio é falar de comunicação, cognição e atividade, onde os sentimentos desempenham papel decisivo.

 


Sentimentos

       É com muita emoção que ocorre a vivência de quem escreve uma metamensagem a respeito de sua mensagem maior - morte através do suicídio. Diante de uma folha em branco - o que escrever? para quem escrever? - se desenvolve um emocionante, dramático e angustiante processo mental onde sentimentos se conflituam, se contradizem e se afirmam, politicamente pensados ou não, ideologicamente desfechados com consciência ou não de afetar toda a sociedade. Não raro, perguntas ficam sem resposta, quando não se traduzem em uma situação extremamente angustiante onde, querendo utilizar-se de um papel em branco, de uma parede ou do próprio corpo para escrever, a pessoa não consegue e seu gesto de suicídio se impõe como única comunicação. É obvio que não se pode comparar angústias porque aquele que escreve também vive um drama sem igual ao se culpar, se punir e se preocupar com as últimas recomendações e orientações aos outros, geralmente  pessoas amadas ou odiadas. Mas, o importante é se pensar que, escrevendo ou não, a pessoa esta se utilizando de um processo mental para transformar o que lhe é desconhecido - morte através do suicídio - em algo familiar, especulando a respeito de como os outros irão se comportar, quer seja diante de seu cadáver, quer seja diante de suas metamensagens carregadas de esclarecimentos, desejos, conforto, etc.

 
          As representações sociais não excluem as emoções sempre presentes em todo ato humano e que se apresentam intensamente tanto na hora em que se escreve um bilhete quanto na hora do gesto suicida. Até mesmo a ausência de nomes nas metamensagens podem também significar um excesso de emoção onde o(s) nome(s) ficaram presos na garganta e caídos feito lágrimas no papel. Não seria o caso da mulher de 30 anos, com dois filhos, capaz de escrever apenas:

"Adeus para todos vocês"  seguido de sua assinatura?

 
          É preciso ressaltar que o suicídio ocorre devido às substituições afetivas que se sucedem na comunicação do indivíduo consigo mesmo.

 
          Nos bilhetes há indícios de que o indivíduo luta para não ser seduzido pelo signo suicídio. Todas as afirmações de que ama alguém revela que não se sente amado e, por isto, o signo amor está totalmente vinculado ao outro a ponto do "não se sentir amado" ser substituído pela morte através do suicídio. Vejamos o que escreve a mulher de 40 anos que matou seu marido antes de suicidar:

"... não será meu mas também não será de Claudete."

 
          O suicidado se expressa com muito amor, demonstrando preocupação em isentar as pessoas próximas de culpa mas, ambiguamente, deixa  sentimentos de culpa nos outros:

"... lembre-se que ti amei e amei de verdade " (F, 20)

"Faço isso pensando nos outros, pois assim paro de perturbar os outros." (M, 20)

"Agora será impossível me ouvir outra vez. Eu te amo (...) Eu te amo, tudo o que fiz foi porque o amava demais." (F, 22)

 
           E, ainda, compreendendo "(...) que pratica algo inadequado, interdito, ou pelo menos afrontante aos outros (ao se recusar a convivência social)" (Dias, 1991, p. 93),  escrevem :


"... peça desculpas a minha mãe." (F,22)

"Perdoem-me..." (F, 27)

"... peço desculpas..." (F, 64)

 
           A mulher de 22 anos não pede desculpas diretamente a mãe, pedindo que outro o faça em seu lugar. Mas, por trás do seu pedido, está mesmo é transferindo sua culpa ao outro. Refletindo a respeito dos termos desculpa e perdão, tem-se que, quando o suicidado pede desculpas, ele quer que lhe tirem a culpa de ter-se matado. Ocorre que o comportamento de pedir desculpas foi a forma que os seres humanos encontraram de jogar no outro sua própria culpa de maneira que o outro elimine a culpa de quem está pedindo desculpas, a qual é pessoal e intransferível. No caso do suicidado não tem como seu pedido não ser aceito e, assim, acaba por forçar a transferência de sua culpa, antes intransferível, para quem destinou  seu pedido. Às vezes, utiliza  perdão como sinônimo de desculpa, para solicitar que seja poupado, absolvido e, aqui, a culpa de quem recebe o pedido é justamente a de não poder transmitir ao suicidado sua absolvição. O gesto suicida apresenta-se, então, como vingança e como poder. Vingança que se impõe ao outro como violência máxima, sem permitir resposta. Se o gesto não é suficiente, o suicidado reforça na metamensagem:

 
"Esta faca em meu corpo é para ser entregue a Doralice para cortar esta  língua felina..." (M,33) Torna-se, assim, mais poderoso após seu gesto suicida. Não se contenta em ter assumido o poder sobre si mesmo. Quer mais. Por isto, deixa suas metamensagens determinando o que deve ser feito, por quem deve ser feito e para quem deve ser feito. Exerce um poder material e um poder espiritual, onde até o caos social provocado pela ambigüidade amor-ódio pode ser premeditado através da escolha de um local onde se matar, de escrever ou não uma metamensagem e de utilizar ou não uma arma de pessoa conhecida.

 
          As atitudes dos outros são, pois, uma reação a uma ação do suicidado, ou mesmo  a uma reação do suicidado, pois como foi visto no início deste Capitulo, o suicídio enquanto atividade pode também ser reação.

 
          Em geral, entende-se reação uma resposta a uma ação qualquer por meio de outra ação que tende a anular a precedente. Pode-se, ainda, entendê-la como o comportamento de alguém em face de ameaça, Agressão, provocação, etc ou como sendo oposição, luta, resistência. O suicidado reage, portanto, a que?

 
          Vejamos como cada qual reage diferentemente diante de situações também diferentes, porém há pontos em comum. Os conflitos internos tornam-se intensos e vazam para o exterior, após um sofrido processo mental de comunicação consigo mesmo, através daquilo que escrevem para, por fim, todo o sofrimento exteriorizar-se no ato  de suicídio. As mulheres suicidadas escreveram:

"... está tudo doendo dentro de mim... (...) Du não estou agüentando mais, esta sendo duro resistir esta dor tão grande que estou sentindo dentro de mim..." (F, 20)

"... enfim, chorar as sua  lágrimas que não encontram onde chorar." (F,27)

"Estou cansada...  ... mas estou morrendo aos poucos..." (F, 40)

"Sofro demais, não agüento." (F, 60)

"... as minhas depressões nervosas..." (F, 64)

 
          Estas mulheres tentam, através do suicídio, anular uma ação comunicativa e emotiva que lhes é interna: a ação de sofrimento insuportável, impossível de ser extravasada através de lágrimas e que destrói o ser humano pouco a pouco. A dor não é algo abstrato e sim uma imagem que se objetiva em sofrimento físico.

 
          É interessante observar que os homens suicidados não manifestam assim seus conflitos internos, porém é possível detectar que o suicídio é uma reação a baixa auto-estima, a estima aos outros e a perda de perspectiva de futuro:

"... decepcionado com a vida e outras pessoas." (M, 28)

"... não consigo tocar mais a vida passei a ser um dependente e isso agora me incomoda... No momento me sinto incapaz de conseguir desempenhar qualquer coisa... (...) Nunca soube me dar e receber afetividade sou um tapado não consigo aprender fácil as coisas." (M, 35)

 
           As emoções tornam-se insuportáveis precisando matar o corpo para matar os sentimentos que o penalizam;  sentimentos resultantes do relacionamento do sujeito com outras pessoas do seu grupo social. São os suicidados que esclarecem:
"... está tudo doendo dentro de mim só em pensar que ti perdi de verdade." (F, 20)

"... tudo o que fiz foi porque o amava demais." (F, 22)

"Volto derrotada porque não fui capaz de viver, trabalhar e estudar não foram suficientes para mim. E foi tudo o que me restou." (F,27)

"... estou morrendo aos poucos desde o dia que encontrei aquela mulher com ele no carro." (F, 40)

"Mãe - eu não quero ser mais uma ovelha desse sistema." (M, 15)

"Tentei transmitir amor, paz, compreensão, amizade, para um mundo que já se esqueceu de tudo isso." (M, 28)

"Estou em tratamento no serviço de Psiquiatria há sete anos." (M, 56)

 
          Analisando os suicídios através dos sentimentos, é possível concluir que o suicídio é um fenômeno que se define pelas contradições. Ele é a saída encontrada quando são quebrados os vínculos comunicativos do indivíduo com o mundo onde vivia: o suicídio é o signo que substitui o vazio existencial, quer porque há a perda do outro quer porque já não se tem força para agir em um mundo onde não há quem ou o que pelos quais se deva lutar. Há ruptura do vínculo físico e do vínculo simbólico.  O ato de suicídio é a provocação, a agressão, a única luta possível porque o suicidado ama, mas não é correspondido; fala, mas não é escutado; escreve, mas não acredita que será lido:

"... ti perdi de verdade..." (F, 20)

"Você não quiz me ouvir. Agora será impossível me ouvir outra vez."(F, 22)

"Chega de palavras pois estas também irão se perder com o tempo." (M, 28)

 
          O indivíduo deixa de confiar até mesmo na mensagem que escreve e, então, seduzido pela garantia de que a única linguagem compartilhada por todos, obrigatoriamente, é a linguagem corporal, realiza o ato de suicidar, restabelecendo as relações, as comunicações entre ele e a sociedade. Cria na realidade social uma nova situação de dependência onde o suicidado tem que ser e estar colocado, obrigando que outras pessoas de seu relacionamento se manifestem e, mesmo, novas pessoas tomem conhecimento de si. Dias(op.cit) escreve:

 "... o indivíduo ao morrer, "passa a viver". Ele ai, então, expressa muito de seu estado emocional e de sua interioridade que não foi possível comunicar em vida." ( p. 92)

 
 Obs: Este texto foi extraído de:

SUICÍDIO - TRAMA DA COMUNICAÇÃO

Dissertação de Mestrado, 1992, Psicologia Social, PUC-SP

Autor: Marcimedes Martins da Silva

 

Volta ao início da página                                  O ritual de passagem e metamorfose


© Todos os direitos reservados 1998.