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O ritual de passagem e metamorfose

           O suicídio, como qualquer outra situação de morte, é uma passagem. O indivíduo está cruzando a  fronteira que separa a vida e a morte, as quais não são contrárias, mas complementares e está, sobretudo, cruzando a fronteira entre si mesmo e a sociedade. O gesto de suicidar  serve para o indivíduo passar de seu "status" vivo (suicidando) para seu "status" morto(suicidado). A diferença entre o suicídio e as outras maneiras de morrer - homicídio, doença, acidente, velhice - é a exclusividade que o indivíduo  tem de cruzar a fronteira vida-morte,  antecipando-se às outras maneiras e possuindo rituais característicos dos quais faz parte matar-se. Leach escreve que o "cruzamento de fronteiras e limiares é sempre cercado de rituais." (1978, p. 46)

 
           Os suicidados reconhecem o suicídio como uma maneira de cruzar uma fronteira
escrevendo, por exemplo:

"... tento passar para um outro plano..." (M, 28)

"Sou... um espírito em evolução..." (M, 27)

 e quanto a antecipar-se as outras formas de passagem, eis um que assim escreve:

"... achei que a hora era essa. (...) Meus dias neste planeta chegaram ao fim." (M, 22)

 
           Às vezes, é preciso captar as intenções do suicidado escondidas nas palavras como:

"Eu renasceria..." (F, 27)

que indicam a esperança de uma dupla passagem,  sendo a primeira aquela da vida para a morte e a segunda da morte para o renascimento.
          É possível detectar no rito de passagem suicida os três rituais apontados por Leach: o ritual de iniciação ou de separação, o ritual de marginalidade e o ritual de agregação.  ritual de iniciação é aquele através do qual o indivíduo começa a se retirar de sua existência normal e, mentalmente, começa a alimentar suas idéias de suicídio porque:

"... ti perdi de verdade." (F,20)

"... não encontrei mais nenhuma existência para mim." (F, 22)

“... estou morrendo aos poucos..." (F, 40)

"Sofro demais..." (F, 60)

"... não quero ser mais uma ovelha desse sistema" (M, l5)

 
           Motivado a se matar, começa a preparação que requer vários detalhes incluindo os cuidados com o próprio corpo, com o local do suicídio e com o método. A  foto 2 apresenta uma mulher bem maquiada, bem penteada, com colar no pescoço. O "punk" (M, 15) veste  jaqueta azul com mangas cortadas, camiseta fantasia, rasgada na parte inferior, calça rasgada na altura dos joelhos, cuecas de malha, corrente com cadeado no pescoço, uma medalha e um parafuso na lapela,
pedindo, através de uma metamensagem, que seja enterrado tal como está.

 
          O método tem que garantir o resultado e, assim, cada um escolhe aquele que acredita ser o
mais eficaz ou que lhe é mais conhecido, podendo, por garantia, chegar ao capricho de se dar um
tiro com bala especial que espalha estilhaços por dentro do corpo (foto n. 5).

 
          Quanto ao local, se a pessoa desconfia que seu suicídio pode ser dissimulado em acidente ou
até mesmo em homicídio pelos familiares, médicos ou autoridades políticas, pode incluir no seu gesto a preocupação de que seja o mais público possível. Pinguet relata: "... os amantes usam toda sorte de ardis para abandonar a casa fechada, eles fogem, vão morrer ao ar livre, no frio da madrugada, como para impedir a mentira e o silêncio de ficarem com a última
palavra." (1987, p. 247)

 
          Deixar ou não deixar um bilhete também pode fazer  parte deste ritual de iniciação.

       O importante é perceber que o rito de iniciação ou de separação é o conjunto de ações
expressivas que demonstram e comunicam como o indivíduo está se retirando de sua existência
normal e se iniciando em outra vida. O que se passa, com a pessoa, no dizer de Leach, é que aquele que "(...) está se submetendo a uma mudança de status deve, primeiramente, ser separado de seu papel inicial. (1978, p. 95)  para tornar-se  "(...) temporariamente uma pessoa anormal que existe num tempo anormal." ( p.  95)

 
          A seguir, o suicidado entra em    "(...) um intervalo de ausência   de marcação de tempo social que, se aferido por um relógio, pode durar poucos momentos ou se estender durante meses." (pp. 95-96) É o ritual de marginalidade onde o indivíduo se sente completamente isolado dos outros e já tem como certo sua morte social e psicológica. Ele procura se manter fisicamente afastado das outras pessoas. O indivíduo pode procurar tanto o isolamento em um cômodo quanto no alto de um edifício, mas como se trata, também, de um estado intrapsíquico, a pessoa pode se manter isolada ainda que esteja na presença de outros.   Ele se sente santificado, sendo comum nos bilhetes as referências ao outro mundo:

"...onde poderá, enfim, chorar as suas lágrimas que não encontram onde chorar." (F, 27)

"Deus é grandioso; eu espero poder ajoelhar-me em seus pés no dia do juízo final,..." (M, 22)

"... tenho fé em Deus que volto para te buscar?" (M, 33)

 
               Corroborando com a idéia de que há no suicídio os rituais de separação e de marginalidade, tem-se que os bilhetes não são escritos com o conhecimento de outras pessoas. Quando contam com a participação de outro, como ocorreu com Getúlio Vargas auxiliado na redação de sua carta-testamento por José Maciel Filho, ao outro não é revelada a intenção de
suicídio.

 
          O ritual de marginalidade leva, às vezes, a ser rápida a despedida como no caso do curto bilhete:

"Adeus para todos vocês" (F, 30).

 
          Fato é que se o suicídio é concretizado  após este ritual, a pessoa transita  para seu novo "status" de suicidado. Caso contrário, transita para o "status" de suicidando -  ameaçador ou tentador de suicídio.

 
           Por isto mesmo, após o ritual de marginalidade, ocorre o ritual de agregação que é quando o indivíduo atinge seu novo papel; neste momento, há a volta para a sociedade dos vivos. Independente de outras comunicações do suicidado, seu corpo fala. Alguém recebe a mensagem e a compartilha socialmente. A comunicação  do seu ato de suicídio, que antes reservara a si mesmo em imagens mentais, é agora socializada e pode abalar três importantes mediações sociais privilegiadas
na teoria de Durkheim - a família, a religião e o Estado. A expressão pode abalar utilizada na frase anterior é proposital e indica que uma das mediações sendo atingida pode, em seguida, tomar providências para dissimular o suicídio apresentando-o como acidente, morte natural, etc. Pinguet(1987) se refere a estes suicídios dissimulados pelos familiares, médicos e autoridades com a frase "É morrer duas vezes!" (p. 247)     E, segundo este estudo, é sufocar o suicidado duas vezes
na sua comunicação porque o suicidado fez do ato de suicidar sua mensagem, comunicando não somente seu fracasso individual, mas, também, o fracasso de uma proposta comunitária (de comunicação) e, denunciando, além de sua crise, também uma crise coletiva (de comunicação).

 
Movimenta, assim, os familiares, as autoridades - peritos, policiais, médicos e outros – que representam o Estado e as autoridades religiosas. O suicídio se posiciona, então, como uma situação  fronteiriça também entre o indivíduo e a sociedade,  além de entre a vida e a morte. É a forma encontrada de cruzar a fronteira entre o isolamento individual e a sociedade.
           Antes da morte física, porém. a pessoa viveu simbolicamente seu suicídio, comunicando-se consigo mesma e tendo oportunidade de elaborá-lo psiquicamente, substituindo-o por outro signo: um ideal, uma pessoa, dinheiro,  algo que é vida material e, portanto, tinha outras  alternativas de cruzar a fronteira para ser agregada na sociedade no novo papel social- suicidando - resultante de sua crise de comunicação. Poderia também sair do seu estado de marginalização e ser agregado a
sociedade através de um signo substituto que lhe recordasse sua humanidade e acabasse com sua "santidade". Há vários exemplos de personagens literários que não se matam devido a tais substituições: Fausto, de autoria de Goethe, desiste do suicídio quando ouve os sinos da igreja e o personagem Severino, da peça "Morte e vida severina", desiste porque se depara com o nascimento de uma criança. Tiveram  oportunidade de ancorar suas idéias de suicídio não na morte física, mas
em outros signos  e descobriram que "O verdadeiro suicídio é precisamente o preciso suicídio que não se comete." (Cooper, 1980, p. 61) Se optassem pelo suicídio, eles demonstrariam  que a vida que queriam seria "outra vida" e, desta maneira, passariam  a ser agregados a sociedade no papel de suicidados.

 
          Outro detalhe importante no ritual do suicidado é que o suicídio é sempre acompanhado de violência corporal que mesmo um leigo percebe quando examina fotos de suicidados. Exemplos: a foto n. 4 mostra um homem caído no chão, um revólver e muito sangue ao seu lado; a foto n. 1 mostra uma mulher idosa, caída sobre uma cama, com uma faca enterrada no peito esquerdo e pouco sangue derramado pelo ferimento. Ou seja, a agressão contra si mesmo transcende de uma
violência individual para uma violência social. A dor do suicidado expressa nas metamensagens é uma dor que se espalha sobre a comunidade através de fotos, de bilhetes ou de bens porque tudo o que possa perpetuar a memória do fato é um documento que incomoda o social. Mesmo arquivados os documentos e deteriorado os bens, o suicidado não é facilmente esquecido porque a violência do seu gesto-comunicação é, sobretudo, uma violência psíquica contra os outros. Seu grito por socorro, que não foi ouvido antes, é lançado alto e implacável contra a sociedade. Dias afirma:

 "(...) através da auto-agressão, o indivíduo deseja no fundo agredir ao outro ou a sociedade, se ela e vista como causa de seus problemas." (1991, p. 125)   E é o que ocorre: a dor do suicidado, como foi dito quando se analisou culpa e desculpa no capítulo anterior, é transferida para os outros de forma violenta e como dívida impagável da sociedade para com o suicidado. Este, segundo Dias, "Transforma-se no "bode expiatório" do grupo, ao incorporar  o mal." (1991, p. 113)  Mas não é bem em "bode expiatório" que ele se transforma. Esta passagem deve ser entendida dentro de uma
dinâmica onde o indivíduo age para   ser considerado herói lutando contra a tendência social de considerá-lo um covarde diante da vida. Ele se coloca como oferenda de um sacrifício, utilizando-se de uma estratégia de sedução onde sua imagem de herói e de vítima deve marcar as outras pessoas.  Manhães escreve: "A   serenidade mortal do grande suicida é impressionante. Ele julga estar certo e  não dispensa o esmero de um certo ritualismo. Veste-se bem, nesse momento, perfuma-se e mostra-se tranqüilo." (1991, p.  57) Neste sentido, as fotos sugerem que o suicidado se prepara para ser tal oferenda no ritual de passagem. De fato, a foto n. 2 mostra uma mulher maquiada e a de n. 3 mostra um jovem que
enfaixou sua cabeça para, segundo o perito, não estragar a beleza do seu rosto. Nota-se que o suicidado segue um ritual, onde :

-         se sacrifica realmente:

"... dou meus olhos, meus cabelos e meu sangue a quem precisar."  (F, 22)

"... eu lhe dou a minha vida." (M, 33)

-         se preocupa com os outros:

 "Veneno
 Cuidado" (M, 22)

 "Cuidado, a arma é automática e pode disparar sem mais ou  menos." (M, 28)

-         e, por fim, diferente do bode expiatório, ele se santifica e se purifica:

"Sou... um espírito em evolução..." (M, 27).

"No dia do juízo final... serei perdoado e reintegrado com os meus." (M, 22)

 
          Para tanto, justifica-se pelos erros cometidos:

“ Tudo o que fiz de errado, foi uma necessidade de estar com você outra vez. (F, 22)

"Matei porque não agüentava mais." (F, 40)

"Eu era alcoólatra (...) não bebo bebida alcoólica nenhuma, mas nem cerveja (...) porque realmente fazem cinco anos que eu não bebo nada mesmo." (M, 56)

 
          Este último suicidado, tratado durante sete anos por psiquiatras, é obsessivo em afirmar que largou a bebida no seu bilhete endereçado aos médicos. Matar-se não pode ser visto como fracasso ou como loucura e disto eles se defendem também:

"Sei que... achará loucura o que esta acontecendo, mas tudo é a síntese de uma árdua e solitária era
para o ser humano. (...) Sei que todos acharão covardia minha ter procurado a morte,... Não estou
louco e sim decepcionado com a vida e outras pessoas." (M, 28)

 
"Sei que estou tendo uma atitude um tanto egoísta depois de tanto me ajudarem o único que não
consegue se ajudar sou eu,..." (M, 35)

 
          Assim, é importante ressaltar que o ritual do suicídio, similarmente a qualquer outro ritual de passagem, é a procura do suicidado em integrar-se a sociedade como um novo membro - não louco e sim corajoso e poderoso como espírito - que deve ocupar o lugar do outro - covarde, incapaz de viver, derrotado - que morreu. Constrói, então, um novo personagem capaz de permanecer vivo somente através do suicídio, única atividade possível para superar a cristalização da identidade. Ele se sacrifica em busca de uma nova vida, de uma nova identidade. Age como no ritual dos índios
Bororo do Estado de Mato Grosso é particularmente útil ao propósito deste estudo porque é um ritual de morte que entrega a comunidade um novo membro no lugar de outro que já morreu. O iniciado, adolescente, vai para a floresta onde se submete a várias provas - imersão, perfuração das orelhas, corridas, caçadas, fuga dos "inimigos" adultos - para, depois, ser apresentado a      futura mulher, recebendo o estojo peniano, feito de casca de babaçu e se tornando, enfim, um novo homem da sociedade Bororo.

 
          Ciampa(1987) escreve a respeito da identidade:

 

"Cada indivíduo encarna as relações sociais, configurando uma identidade pessoal. Uma história de
vida. Um projeto de vida. Uma vida que-nem-sempre-é-vivida, no emaranhado das relações
sociais."
(p. 127)

 
Identidade é um processo de transformação, de metamorfose. Analisando a busca do lavrador Severino por outra personagem, Ciampa afirma que Severino pensa suicidar e que se não conseguir construir uma nova personagem, só lhe restará este caminho de autodestruição.  O que se quer colocar neste estudo é que aquele que efetivamente quer se matar para escapar a mesmice, também constrói uma nova personagem: de suicidando, transita, mentalmente, para
suicidado. A representação morte-vida é substituída pela de suicídio, o qual se apresenta como possibilidade de mesmidade, de devir. Ciampa parte do pressuposto de que identidade é metamorfose sendo que mesmice é a não mudança, a aparência; enquanto que mesmidade é o devir, a essência. Na presente análise, a pessoa ao cometer o gesto suicida realiza fisicamente a metamorfose, porque "... identidade é metamorfose. E metamorfose é vida." (Ciampa, 1987, p. 128) No suicídio, mais do que em qualquer outra situação, o sujeito em crise é o sujeito que é crise e, por isto mesmo, capaz de se realizar somente através da própria destruição. Ameaçado na existência atual pelo tempo de vida que lhe resta, se mata porque quer outra vida. Transforma, deste modo, fronteira vida-morte em complemento da vida e, ao se matar, completa a dialética "vida-morte-vida".

 

Obs: Este texto foi extraído de:

SUICÍDIO - TRAMA DA COMUNICAÇÃO

Dissertação de Mestrado, 1992, Psicologia Social, PUC-SP

Autor: Marcimedes Martins da Silva

 

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